domingo, 28 de setembro de 2008

Texto para reflexão

Compartilho com vocês o texto da Profa. Roseli Fischmann, por sua clareza e densidade. Creio que pode suscitar debates interessantes.

Diversidade, um paradigma do viver
Prof. Dra. Roseli Fischmann

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e consultora internacional da área de diversidade cultural e educação. Foi membro e presidente do Júri Internacional do Prêmio Unesco de Educação para a Paz (1999-2002), Visiting Scholar da Harvard University (2003-2005), articulista regular do Correio Braziliense desde 2000, coordena o projeto “Discriminação, preconceito, estigma: relações de raça, etnia e religião e educação” na FEUSP, publicou diversos livros como autora, organizadora ou co-autora, como a série em colaboração com diversos pesquisadores, pela EDUSP e Unidade da Tolerância da UNESCO, Paris, “Ciência, Cientistas e Tolerância, com 3 volumes publicados até o momento.


Disponível em http://www.itaubank.com.br/fundacao/asp/artigo.asp

Tema que tem uma história de luta para ser incorporado ao debate na esfera pública, por sua relevância, complexidade e desdobramentos gerou durante muito tempo resistência e, mesmo, oposição aberta. Trata-se de um confronto ao antigo paradigma normatizador, representando um desafio a todos que, criados e educados à luz de semelhante paradigma, buscam construir as bases culturais e psicológicas para o estabelecimento da democracia, em nível nacional, e da paz, em nível internacional. Contudo, há como uma “onda”, um modismo, que fala de diversidade como se fosse algo leve, livre e solto. Ledo engano, a abordagem parece repercutir de forma vulgar o dito de Thomas Kuhn, no clássico A Estrutura das Revoluções Científicas.

Segundo Kuhn, um paradigma realmente inovador, que rompe com o anteriormente dominante, promove tanto efetivos avanços no conhecimento, como múltiplas possibilidades de continuidades e desdobramentos. Por romper com o paradigma anterior, gera novas referências, o que significa novos produtores dessas referências e, assim, novas autoridades (tendo como base o saber e não postos burocráticos) na esfera pública, igualmente gerando, num primeiro momento, resistências. É que tanta novidade significa transformações a caminho, também expressas em linguagens e fatos políticos. Rearticulam-se as relações de poder no meio científico e para além dele. Complementa Kuhn, lembrando que no momento em que se impõe, cabal, o pleno reconhecimento da vitória do paradigma inovador, o mesmo que tanto foi antes combatido, há uma debandada em direção ao que se combatia, louvando então como verdade, o que, afirma-se peremptoriamente, defendeu-se “desde sempre”. Atingido o reconhecimento, contudo, o paradigma pode entrar em risco, porque semelhante aporte de súbitos apoios, pode significar uma vulgarização do que gerou a própria criação do paradigma, perdendo-se a riqueza heurística da fundação.

Imagem: Outdoor da exposição Coexistência. Veja em http://www.coexistencia.org.br/


Ora, o tema da diversidade tem sofrido esse tipo de processo, em que pese a beleza plural que gera a existência do tema, eivada de vida e valores por serem conhecidos, relações por serem analisadas, compreendidas e promovidas. De fato, a diversidade trata de existência, coexistência, encontros e conflitos. Mais ainda, o contato entre grupos humanos tem sido marcado pelo estranhamento do Outro, indo de guerras e conflitos à recepção pacífica já no primeiro encontro. As dificuldades de lidar com a alteridade têm levado à busca de homogeneização, tomando cada grupo a si mesmo como padrão de verdade e os demais como os que devem se adaptar, mudando “volutariamente” ou por mero constrangimento e mesmo violência – tudo dependendo de quem disponha da força para garantir a submissão.

Considerando aspectos culturais, essa homogeneização corresponderia a um solapamento de identidade, ameaça de que grupos, organizações e instituições procuram evitar, até por instinto de sobrevivência. Se desaparecessem as singularidades, tudo se tornaria semelhante e indiferenciado e a vida cultural estagnaria, para, a seguir, perecer.

Em um mundo que tem vivido a globalização como processo econômico irresistível, contudo, a homogeneização de padrões tem se dado como se fosse automática. De padrões de organização de espaços – como a disposição de prateleiras e produtos em farmácias – aos de paladar – como o sabor inconfundível de redes internacionais de fast food – tem-se muitas vezes a impressão de que, estando onde se estiver no planeta, será sempre o mesmo lugar, mesmo com adaptações “culturais” que se fazem aqui e ali.

Sucede que, face ao processo de homogeneização econômica, grupos culturais sentem-se ameaçados, assim como indivíduos. O autor norte-americano Allen Wheelis já indicava, no final dos anos 1950, quando a homogeneização era um fenômeno que ocorria no interior de algumas sociedades como aquela em que ele vivia (a dos Estados Unidos), que a perda da singularidade é um dos fatores que concorre para a perda de sentido da vida, no plano individual. Ora, no plano de grupos culturais, étnicos, religiosos, a realização do sentido histórico é permanente, fundando-se nas respectivas tradições, e ameaçar as singularidades é ameaçar sua própria existência.

Singularidades têm a ver com identidade, seja no plano individual, seja no social, comunitário, institucional. Por exemplo, como determinada pessoa compõe, em sua vida, seus vínculos de nacionalidade, religião, família, regionalidade, profissão, grupo étnico, tudo se compondo com o tempo e o espaço específico em que vive, configura aspectos de sua singularidade, que cooperam na definição de sua inserção no mundo.

No campo individual de possibilidades, a dinâmica dialógica de como se compõe o singular face à apresentação de novas alternativas, tem repercussões que, de maneira geral, restringem-se ao âmbito específico de atuação e vida da pessoa.

Já no campo social, diferentes grupos e organizações têm diferentes formas de lidar seja com alternativas novas, seja com a própria relação com o social mais amplo. Por exemplo, empresas buscam acentuar potencialidades de inovação, diferenciais de inserção no mercado, em providências que vão da marca institucional, a detalhes de arquitetura. Procuram valorizar o que oferecem, justamente ao garantir que se trata de algo “único”.

Quando se trata de instituições religiosas, a busca de afirmação de singularidades apresenta peculiaridades. Historicamente, o processo de diferenciação de organização religiosa fez-se à base de conflitos e traumas, sempre que representou rupturas dentro de determinada ordem. A presença das minorias religiosas, a lembrar o direito à liberdade de crença e de culto, em particular no contexto de Estados laicos, como o Brasil, e mesmo a coexistência de diferentes denominações no interior de religiões majoritárias, ou de grupos no interior das denominações, fala de múltiplas faces, compostas histórica e culturalmente, exemplo paradigmático desse tipo de processo, com repercussões graves no campo jurídico, para que se garanta a liberdade de todos, dos que crêem e dos que não crêem.

Comunidades desenvolvem, assim, seus próprios modos de viver, marcados por identidades raciais, étnicas e religiosas, enquanto novas comunidades compõem-se a partir de novos tipos de pertenças, como porque se compõe o grupo de portadores de necessidades especiais, ou porque se luta por alguma demanda especial, que há de demonstrar modos de ser e viver distintos do que se dá como “padrão”, como acontece com as demandas de grupos homossexuais. Ou, ainda, as lutas anti-racistas, importante exemplo a demonstrar como há relevantes singularidades no interior da própria temática da interação entre identidade e diversidade, com forte e específica repercussão social, a não permitir generalizações que devolveriam o paradigma inovador, da diversidade, ao estágio anterior, da normalização, ainda que elaborada pelo bom tom do diverso e da diferença.

Institucionalmente, o desafio é criar modos de incluir, não só pelo acesso, mas pela possibilidade de conciliação entre interesses distintos, muitas vezes expressos em direitos que aparentemente conflitam em espaço público, ao ponto mesmo da competição no interior da diversidade, propondo novas questões e desafios. Como se tratam de seres humanos, será sempre a questão do diálogo e do convívio a clamar por atenção e presença, o exercício permanente da escuta e do olhar, do cuidado artesanal com a palavra que se profere na interação com o outro – palavra que pode ser fundadora ou destruidora de mundos e laços.

Em suma, trabalhar arduamente os desafios da diversidade é o caminho de construir a vida e a própria singularidade em cooperação, única forma de viver e exercer verdadeiramente o poder em concerto de que falou Hannah Arendt, futuro luminoso que, mais do que nunca, é preciso vislumbrar.

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