terça-feira, 20 de outubro de 2009

A invisibilidade dos migrantes e a anistia - Debate no CEDEM/UNESP em São Paulo

A invisibilidade dos migrantes e a anistia

Debate Cedem/Unesp


A invisibilidade dos migrantes e a anistia será o tema do Debate Cedem/Unesp no próximo dia 29 de outubro, quinta-feira às 18h30, promovido pelo CEDEM – Centro de Documentação e Memória da UNESP e pela Pastoral do Migrante em São Paulo.

Os imigrantes são a nova face da pobreza no mundo contemporâneo. Segregados socialmente, trabalhando na clandestinidade, são alvo de todo tipo de racismo e discriminação, vivenciando cotidianamente a sensação de estar fora do lugar. A todo momento são chamados a justificar o porque de sua presença num país que não é o seu. Por isso, frequentemente buscam a invisibilidade social, ao mesmo tempo em que a própria sociedade nacional em que se inserem não parece considerar a sua existência.

O pressuposto da cidadania é o reconhecimento de toda pessoa humana como sujeito de direitos, o reconhecimento de sua existência e de sua aparição pública. A anistia é uma porta que se abre àqueles que se encontram na invisibilidade social, por não contarem como nacionais, aqueles que deveriam ser reconhecidos pelo Estado-Nação. Mas é apenas uma porta... O que efetivamente surge quando se abre essa porta? Qual o caminho real a ser trilhado pelos imigrantes para alcançarem a cidadania que eles, de fato, almejam? E que tipo de cidadãos a sociedade brasileira espera que eles sejam?

Debatedores

Sidnei Marco Dornelas - Padre Scalabriniano, Mestre em Ciências Sociais (Institut Catholique de Paris) e Diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM/SP)

Mário Geremia - Padre Scalabriniano e Coordenador do Centro Pastoral do Migrante (CPM/SP)

Ruth Camacho - Advogada e presta serviços de atendimento jurídico no Centro Pastoral dos Migrantes (CPM/SP)

Mediador: Oscar D´Ambrósio
Bacharel em Letras – Mackenzie, Mestre em Artes – UNESP, Crítico de Arte
Graduado em Jornalismo – USP, Escritor e Coordenador de Imprensa da Reitoria da UNESP

Inscrições gratuitas c/ Sandra Santos pelo e-mail: ssantos@cedem.unesp.br
Local: CEDEM/UNESP – Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé)
Quando: 29/10/09 às 18h30 – 5ª feira

(11) 3105 - 9903 - www.cedem.unesp.br

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Colóquio Internacional: Ciências da Linguagem e Didática das Línguas, na USP

Colóquio Internacional: Ciências da Linguagem e Didática das Línguas: 30 anos de cooperação franco-brasileira
FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
de 19 A 21 DE OUTUBRO DE 2009

Especialistas franceses e brasileiros de renome internacional debaterão os aspectos e os avanços das ciências da linguagem e da didática das línguas.
Questões relativas à identidade, construção do sentido, discursos sociais, socialização e educação serão analisadas a partir da atividade de linguagem.
No âmbito das validações disciplinares e de seus desdobramentos no ensino de línguas, cabe voltar sobre a história das relações entre os estudos da linguagem e a didática das línguas e, mais especificamente, entre a lingüística e a lingüística aplicada.

19 DE OUTUBRO PROGRAMA
8:00 - 8:30 Recepção aos inscritos e retirada do material

8:30 - 10:00 Cerimônia de abertura
SUELY VILELA - Reitora da Universidade de São Paulo
SYLVAIN ITTé - Cônsul Geral da França em São Paulo
SANDRA MARGARIDA NITRINI - Diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo
PIERRE COLOMBIER - Conselheiro de Coop. e de Ação Cultural, Embaixada da França em Brasília
MARIA AUGUSTA DA COSTA VIEIRA - Chefe do Departamento de Letras Modernas,
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo
PATRICK DAHLET - Adido de Coop. Educativa, Embaixada da França em Brasília
VéRONIQUE BRAUN DAHLET - Presidente da Comissão Organizadora

10:00 - 10:30 Café

10:30 - 12:00 Conferência de abertura: Língua e Conhecimento: uma prática e muitos efeitos de sentido
ENI ORLANDI - Universidade Estadual de Campinas
Moderador: JOSé LUIZ FIORIN - Universidade de São Paulo

12:00 - 14:00 Almoço

14:00 - 15:30 MESA-REDONDA 1: CAPES, FAPESP, USP e -Cofecub: para uma linguagem comum
LUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS - Coord. Adjunto da Diretoria Científica FAPESP/Cofecub
MARIA ABIGAIL DE SOUZA - Coord. Progr. USP/ Cofecub, Pró-Reitoria de Pesquisa
THIERRY VALENTIN - Centro Franco-Brasileiro de Doc. Técnica e Científica
SANDOVAL CARNEIRO JR. - CAPES/ Cofecub
PIERRE JAISSON - Coord. Progr. Cofecub, Universidade de Paris 13
Moderador: PATRICK CHARDENET - Agence Universitaire de la Francophonie, Montréal

15:30 - 17:00 MESA-REDONDA 2: Lingüística(s) e didática(s): perguntas recíprocas
CHRISTIAN PUREN - Universidade Jean Monnet de Saint-Etienne
EVELYNE BéRARD - Universidade de Franche-Comté
JOSé CARLOS CHAVES DA CUNHA - Universidade Federal do Pará
DARIO PAGEL - Universidade de Paris VII
Moderadora: CRISTINA CASADEI PIETRARóIA - Universidade de São Paulo

17:00 - 17:30 Café

17:30 - 19:00 MESA-REDONDA 3: Gramáticas e ensino
MARIA HELENA DE MOURA NEVES - Universidade Estadual Paulista / Universidade Presbiteriana Mackenzie
SíRIO POSSENTI - Universidade Estadual de Campinas
RéMY PORQUIER - Universidade de Paris X
VéRONIQUE BRAUN DAHLET - Universidade de São Paulo
Moderadora: Estela Klett - Universidade de Buenos Aires

19:30 Coral USP

20 DE OUTUBRO PROGRAMA
8:30 - 10:00 MESA-REDONDA 4: Análise e apropriação dos discursos sociais
JOSé LUIZ FIORIN - Universidade de São Paulo
IDA LúCIA MACHADO - Universidade Federal de Minas Gerais
CHRISTIAN PLANTIN - Universidade de Lyon 2
Moderador: JOSé CARLOS CHAVES DA CUNHA - Universidade Federal do Pará

10:00 - 10:30 Café

10:30 - 12:00 MESA-REDONDA 5: Linguagens, variações e socialização
MARIA CECíLIA PEREZ DE SOUZA E SILVA - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
MARCOS BAGNO - Universidade de Brasília
DANIEL FAïTA - Instituto Universitário de Formação de Professores do Ensino
Fundamental de Aix-Marseille
PIERRE DUMONT - Universidade das Antilhas e da Guiana
Moderadora: Ida Lúcia Machado - Universidade Federal de Minas Gerais

12:00 - 14:00 Almoço
14:00 - 15:30 MESA-REDONDA 6: O sentido e suas alterações: representações, reconstruções e apropriações
SOPHIE MOIRAND - Universidade de Paris III
ALAIN RABATEL - Universidade de Lyon 2
BETH BRAIT - Universidade de São Paulo / Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
DIANA LUZ PESSOA DE BARROS - Universidade de São Paulo / Universidade Presbiteriana Mackenzie
Moderadora: VéRONIQUE BRAUN DAHLET - Universidade de São Paulo

15:30 - 16:00 Café e Lanche
16:00 - 18:00 Visita ao Museu da Língua Portuguesa -Encontro com a imprensa

21 DE OUTUBRO PROGRAMA
8:30 - 10:00 MESA-REDONDA 7: Ensinar uma língua de especialização: o francês instrumental
SOPHIE MOIRAND - Universidade de Paris III
VERA MARINELLI - Universidade de São Paulo
CRISTINA CASADEI PIETRARóIA - Universidade de São Paulo
ESTELA KLETT - Universidade de Buenos Aires
Moderadora: Haydée Silva - Universidade Nacional Autônoma da Cidade do México

10:00 - 10:30 Café

10:30 - 12:00 MESA-REDONDA 8: Linguagem, identidades e educação
TEREZA MAHER - (Universidade Estadual de Campinas)
MARIA CONCEIçãO PASSEGGI -Universidade Federal do Rio Grande do Norte
PATRICK DAHLET - Universidade das Antilhas e da Guiana / Adido de Coop. Educativa,
Embaixada da França em Brasília
Moderadora: Cecília Perez de Souza e Silva Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

12:00 - 14:00 Almoço

14:00 - 15:30 MESA-REDONDA 9: Cooperar com o espaço francófono: redes e perspectivas
HAYDéE SILVA - Universidade Nacional Autônoma da Cidade do México
ABDELOUAHAD MABROUR - Universidade Chouaïb Doukkali El Jadida/Marrocos
PATRICK CHARDENET - Agence Universitaire de la Francophonie, Montréal
PIERRE DUMONT - Universidade das Antilhas e da Guiana
Moderador: Dario Pagel - Universidade de Paris VII

15:30 - 16:00 Café

16:00 - 17:00 CONFERêNCIA DE ENCERRAMENTO: Convergência de estudos da linguagem e ensino em línguas
JEAN-LOUIS CHISS - Universidade de Paris III
Moderador: Patrick Dahlet - Embaixada da França/Universidade das Antilhas e da Guiana

17:30 - 18:00 Cerimônia de encerramento
SANDRA MARGARIDA NITRINI - Diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas / Universidade de São Paulo
PATRICK DAHLET - Adido de Cooperação Educativa, Embaixada da França/Universidade das
Antilhas e da Guiana
PATRICK CHARDENET - Agence Universitaire de la Francophonie, Montréal
Véronique Braun Dahlet - Presidente da Comissão Organizadora

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Seminário de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa na FEUSP, em outubro

VIII Seminário de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa: Formação Inicial do Professor e Repercussão na Sala de Aula
http://www2.fe.usp.br/~lalec/smelp2009/index.html

É com satisfação que comunicamos a realização do VIII Seminário de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, cujo tema será Formação inicial do professor e repercussão na sala de aula. O evento ocorrerá em 07 e 08 de outubro de 2009 e terá os seguintes objetivos:

• Apresentar e discutir resultados de pesquisas e de novas experiências no campo da Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa;

• Promover a socialização dos trabalhos dos alunos resultantes de seus estágios;

• Promover o intercâmbio entre professores do ensino fundamental, médio e superior e de estudantes;

• Propor novas reflexões sobre formação inicial e contínua de professores de Língua Portuguesa;

• Discutir novas demandas e novas perspectivas de abordagens para o ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Lingüística.

A exemplo do que temos feito desde 2003, quando propusemos a realização do I Colóquio de Professores de Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e de Literatura , que neste ano será realizado na UFMA, de 03 a 06/11/09, bem como do que vimos investigando desde 2005, nesta edição do Seminário enfatizaremos as seguintes questões norteadoras das nossas preocupações em torno da especificidade das disciplinas encarregadas de fazer o elo entre linguagem e educação:

• A especificidade da disciplina Metodologia, ou Prática, ou Didática, de Ensino de Língua Portuguesa: Quais práticas dão contorno ao que é central na disciplina? Seleção de conteúdos? Formulação de atividades? Indicação de linhas teóricas mais eficazes para o trabalho na docência?

• A pluralidade de nomes e de endereços: Quais as razões e as conseqüências das variações como Didática da Língua e da Literatura, Prática de Ensino de...; Metodologia de... e outros? E da lotação do professor da disciplina, ora no Departamento de Letras, ora no Departamento de Educação, etc.?

• A natureza do relatório de estágio: como vem sendo conduzida a sua confecção? Com um caráter de reconhecimento da situação ou mais investigativo? Ele tem se tornado uma instância a mais de crítica à escola e às suas práticas cotidianas ou um estudo sobre a cultura escolar? Ele se constitui em um trabalho em que o licenciando pode exercitar a autoria?

• O papel, a importância e abrangência das práticas de estágio para a disciplina e para a formação do professor de Língua Materna e de Literatura: Como são avaliadas e valorizadas as experiências do estagiário? A realização do estágio, a presença do estagiário no cotidiano escolar, é também vista como um momento importante da pesquisa universitária? Como as universidades e as redes escolares se organizam para cumprir a LDB em relação às suas exigências legais em relação à formação do professor?

• A cultura institucional frente ao estágio: como lidar com uma cultura, infelizmente já instalada em muitas escolas, de fornecer a assinatura nas fichas de estágio sem que o estágio tenha sido realizado? Como instaurar projetos eficazes de trabalho em conjunto com a escola?

• A relação da disciplina com os documentos oficiais sobre o ensino de Língua Portuguesa, tais como PCNS, Propostas Estaduais, Municipais, etc: a disciplina deve estar a serviço da implantação destas propostas? É o lugar da crítica destas propostas? É um momento de teste? É um momento em que o aluno tem contato com as teorias que embasam as propostas?

• Os diálogos possíveis com as outras disciplinas: o que um aluno pode não saber ao chegar no estágio? Em que momento do curso a matrícula na disciplina é pertinente? Que tipo de leitura é pertinente fazer na disciplina? De reconhecimento de conteúdo? De busca de informação? De polemização?

• A atuação dos professores da disciplina enquanto área: Como tem sido nossa participação em eventos nacionais e internacionais? Há eventos regionais eventos específicos da área?

Essas questões têm motivado nossos esforços de pesquisa por meio de projetos que têm sido apoiados por diferentes órgãos:

• Representações concernentes à formação do professor de língua Materna: Estudos sobre a especificidade da disciplina “metodologia/didática/prática do ensino da Língua Materna” , apoiado pela Pró-reitoria de Pesquisa da USP, 2006 - 2008.

• Disciplinas da licenciatura voltadas para o ensino de Língua Portuguesa: saberes e práticas na formação docente , colaboração USP-UFMA, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão- FAPEMA, 2008 - 2010.

• Projeto de Cooperação Acadêmica: Disciplinas da Licenciatura voltadas para o ensino de Língua Portuguesa , apoiado pelo Programa de Cooperação Acadêmica - PROCAD-CAPES (Processo No. 23038.0433099/2008-78), cooperação UFMA-USP-UERN, 2009-2013.

Temos a firme convicção de que a partir deste debate será possível reunir elementos para uma reorganização da área na busca de um perfil acadêmico e científico que faça jus à sua relevância na formação do professor de Língua Materna e de Literatura.

Contamos com a sua colaboração.

Comissão Organizadora

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Bilinguismo: ganho cultural ou mais um motivo para o fracasso escolar?

BILINGÜISMO: GANHO CULTURAL OU MAIS UM MOTIVO PARA O FRACASSO ESCOLAR

Heloísa Xavier da Silveira Calazan
Professora de Português e Inglês UFRJ, Pós-graduada em Literaturas de Língua Inglesa UERJ, Psicopedagoga – Instituto Isabel, Pós-graduada no curso de Formação de Professores de Português para Estrangeiros PUC - RJ
heloisacalazans@uol.com.br

“Conhecer verdadeiramente como um sujeito aprende é um conceito revolucionário, no sentido de aceitar este sujeito e fazer com que ele aprenda de verdade” (Jorge Visca)

Resumo
A proposta deste trabalho é primeiramente tecer certas considerações a respeito das colocações de Piaget e Emília Ferrero com relação ao processo de aprendizagem, focalizando não somente o papel do educador no contexto de aprendizagem bilingüe, como também a validade dos modelos de aprendizagem didáticos, para que haja sucesso nesta modalidade de apprendizagem. Apontará as vantagens de uma abordagem natural, sem deixar de aludir , é óbvio, à prevenção como uma ferramenta indispensável na educação cuja finalidade é minimizar toda e qualquer dificuldade que possa surgir na mesma.

Abstract
This paper aims to discuss some of Piaget’s and Emilia Ferrero’s thoughts about the learning process, focusing not only on the educator’s role but also on the validity of the didactic learning methods. It will also mention the advantages of the natural approach in education, without forgetting obviously, to allude to prevention as an indispensable tool for minimizing all and any difficulty that might occur in this learning modality.

Escolas Americanas são encontradas em vários países da Europa, da América do Sul e até mesmo no Japão. Só no Brasil existem mais que dez escolas americanas distribuídas por diferentes estados. Cursos livres de língua inglesa são também em grande número e até as pequenas cidades já oferecem a oportunidade de se aprender uma outra língua em cursos especiais para tal fim. Por que será que existe este grande desejo de dominarmos uma outra língua além da nossa língua materna? Os motivos são vários, mas o principal deles é podermos nos comunicar com indivíduos de culturas e países diferentes a fim de trocarmos experiências e conhecermos melhor o mundo onde vivemos.
Desta forma as escolas bilingües, como as americanas, inglesas, suíças, etc., passaram além de oferecer educação para os filhos daqueles que se deslocam constantemente de um país para o outro, também a oportunidade para os que querem proporcionar a seus filhos a chance de estudarem em uma escola de uma outra cultura e se tornarem adultos bilingües.
E como fica a educação neste momento? Quais serão as dificuldades que poderão ocorrer na aprendizagem em uma outra língua que não a materna? Será este mais um obstáculo e um outro motivo para o fracasso escolar?
Freqüentemente o bilingüismo é visto como a causa de confusão cognitiva, como coloca Collin Baker (1997). “Este processo é visto por muitos como um cérebro dividido em duas partes, cada uma com uma engrenagem trabalhando a meia força, enquanto o cérebro de uma pessoa monolíngüe teria apenas uma engrenagem trabalhando com força total”. Baker afirma que, na verdade, o bilingüismo deveria ser visto como um dos fatores que favorecem o desenvolvimento da área cognititva, uma vez que exige um maior exercício da mesma, provocando uma maior atividade neuronal, estabelecendo um aumento do número de ligações entre os neurônios do tônus cerebral. O problema não está no bilingüismo, mas sim em como as duas línguas são ou devem ser ensinadas e aprendidas de forma que ambas as línguas sejam totalmente dominadas pelo apren-dente. Para que aprendamos realmente a estrutura de uma língua é necessário estarmos expostos a ela de diferentes formas e muito freqüentemente. Se o aprendente for muito bem guiado dentro deste processo é muito pouco provável um fracasso por parte dele.
Para Piaget (1973), a adaptação intelectual do indivíduo é conseqüência de uma interação ou troca, que ocorre entre meio e indivíduo e envolve os mesmos processos que toda adaptação biológica envolve – assimilação e acomodação. Por um lado a pessoa incorpora ou assimila características da realidade externa às suas próprias características psicológicas, enquanto que também modifica ou acomoda suas próprias características psicológicas de forma a corresponder às exigências que o meio externo exerce sobre ela. Adaptação nada mais é que uma tendência do organismo humano a relizar este processo.
Estes dois processos ocorrem simultaneamente e a adaptação não ocorre sem organização. Organização é o processo pelo qual o indivíduo organiza suas atividades e a forma pela qual ele adiciona características novas à sua estrutura básica, para que possa atender às exigências de novas situações. O resultado da adaptação é que novas estruturas são continuadamente formadas, a partir das já existentes.
Piaget (1973) descreve inteligência como a capacidade do ser humano de se adaptar biologicamente ao mundo que o cerca, assim como o desenvolvimento de uma série de operações mentais que permitem um equilíbrio entre este indivíduo e o meio em que vive. Claro é que o indivíduo também traz uma bagagem hereditária em sua estrutura mental, que coloca limites no seu campo intelectual, limites estes que, salvo os casos de crianças com deficiências mentais, não constituem problemas de peso no aprendizado do indivíduo. Porém, esta bagagem é responsável pelos super dotados ou pelos dotados de dons artísticos especiais. Como ocorreria então este processo quando da aquisição de uma segunda língua, simultaneamente com a aquisição da língua materna?
Emília Ferreiro (1987) tece considerações sobre a idéia que alguns estudiosos tinham a respeito da forma pela qual o ser humano aprende a linguagem oral e escrita e a leitura. “Quando a criança produz um som que se assemelha à fala dos pais, estes manifestam alegria, fazem gestos de aprovação, demonstram carinho, etc. Desta forma o meio vai selecionando, do vasto repertório de sons iniciais saídos da boca da criança, somente aqueles que correspondem aos sons da fala adulta, do idioma em questão. Neste momento o problema resolve-se da seguinte forma: os adultos apresentam um objeto à criança e acompanham esta apresentação com uma emissão vocálica (isto é uma palavra que é o nome do objeto); por reiteradas associações entre a emissão sonora e a apresentação do objeto, aquele termina por transformar-se em signo e portanto se faz palavra.”
Porém, Ferreiro(1987) discorda desta teoria e afirma que “a criança não é passiva neste processo, esperando apenas pelo reforço externo, mas procura ativamente compreender a natureza da linguagem que se fala a sua volta e uma vez que consegue fazê-lo, formula hipóteses e busca regularidades, colocando a prova suas antecipações e criando sua própria gramática, a qual não é uma simples cópia deformada do modelo adulto, mas sim criação original. Podemos então compreender que a aprendizagem não ocorre a partir de elementos isolados que se unem posteriormente para construir um sistema, a linguagem; mas sim pela apreensão do todo, de cujas partes as funções vão aos poucos se definindo”.
Para Piaget (1973), a forma ideal de aprender é através do raciocínio lógico e não através da memorização, o que vem reforçar a colocação de Emília Ferreiro. Segundo estes parâmetros a pedagogia não deve temer o erro, nem o esquecimento, pois conforme afirma Piaget “através de erros e acertos o ser vai construindo seu conhecimento e o esquecimento não importa, desde que o indivíduo seja capaz de reconstruir o conteúdo esquecido”. Então, conclui-se que a melhor forma de adquirir uma segunda língua é como adquirimos nossa língua materna, o que implicará na compreensão da sintaxe, desta segunda língua, de forma que o indivíduo possa formular suas hipóteses em relação à gramática da mesma, buscando semelhanças, fazendo analogias e finalmente aprendendo sua estrutura através da compreensão das suas partes. A simples memorização de vocabulário deixa, então, de ser importante; o que realmente importa é todo o mecanismo em si. Para que o aprendente possa compreender a estrutura desta segunda língua deverá ficar bastante tempo exposto à ela, terá que se permitir o erro e não somente o acerto, pois através do processo ensaio e erro ele irá construindo aos poucos, com raciocínio lógico, as regras da “língua-alvo”, de forma a poder dominá-la um dia. Sabemos que o ser humano constrói sua linguagem da mesma forma que todo o resto do seu conhecimento. Assim é necessário uma análise cuidadosa de todo este processo de aprendizagem a fim de removermos obstáculos que possam surgir dificultando esta aprendizagem.
DELINEANDO AÇÕES PARA O SUCESSO NA APRENDIZAGEM BILINGÜE
Antes de tudo, é preciso compreender que bilingüismo não significa tão somente procurar semelhanças e diferenças entre sintaxes e semânticas das línguas em foco. Na verdade é um aprendizado bem mais complexo, que envolve também a aprendizagem de uma outra cultura (ideologia) bem diferente daquela da qual faz parte o indivíduo. É preciso que compreendamos a forma de viver e de ver o mundo dos integrantes da cultura da qual queremos aprender a língua para que possamos, então, estabele-cer paralelos, detectar semelhanças e diferenças entre as duas línguas. Linguagem é o “agir” do sujeito de forma consciente em relação ao mundo que o cerca. O uso da linguagem e o modo como o indivíduo a constrói determinará a forma como se processa o seu pensamento e a expressão de seus sentimentos. Sabido é que línguas diferentes, pertencentes a culturas diferentes, se expressam de formas diferentes. Portanto, muitas vezes existem palavras em uma língua que não podem ser traduzidas para outra, já que não possuem uma palavra eqüivalente nesta outra língua. A partir da compreensão de toda a complexidade que cerca a aprendizagem de uma outra língua. podemos entender, sem nos surpreendermos que haja casos de resistência, até mesmo inconsciente, por parte de alguns indivíduos,principalmente as crianças para aprenderem uma segunda língua.

O que é e como acontece o aprendizado da criança?
Para aprender é preciso que a criança tenha além da capacidade cognitiva nata uma afetividade posta sobre o objeto da aprendizagem, que no caso aqui enfocado é a segunda língua. Temos, portanto que levar em consideração o significado que esta segunda língua, bem como a cultura que ela representa, tem para a criança. Quando nem os familiares, nem a criança possuem nenhum elo com a cultura da segunda língua, os professores passam a ter a respon-sabilidade de estabelecer este elo, de forma que a criança possa ver algum significado na aquisição da nova língua. Neste momento todo cuidado se faz necessário de forma a evitar que a aprendizagem venha a assumir uma conotação negativa para a criança.
O conhecimento se constrói, como bem o coloca Maria Lúcia Weiss (1992), “através de uma articulação entre algo conhecido, algo por conhecer e o desejo de conhecer. Os questiona-mentos e a possibilidade de redescobrir o mundo são os propulsores do desejo de aprender do indivíduo. Assim, a aprendizagem deve ser proporcionadora de novas descobertas, através de experimentações, as quais, quando não resultam em resposta imediata para o problema, não devem ser vistas como “erros”, mas sim como um processo de constante mudança no “EU”- sujeito, sujeito este que deve ser visto sempre como um elemento ativo e não como receptor passivo do processo. A criança que se surpreende com o seu saber e com o seu potencial de fazer novas descobertas, estará sempre desejosa de adquirir novos conhecimentos”.

MODELOS DE APRENDIZAGEM
O ambiente tem o poder de estimular ou inibir a aprendizagem da linguagem. A aprendizagem é um processo basicamente social – processo de integração, troca social. Neste processo temos que levar em conta três aspectos importantes:
1- O conhecimento da criança e a relação que ela faz entre o que ela já sabe e o que lhe é ensinado. A forma como ela vai assimilar seu aprendizado novo é o que podemos determinar como sendo sua modalidade de aprender, a qual varia de ser para ser.
2- A bagagem biológica que a criança traz desde seu nascimento, a qual não pode ser modificada. Esta bagagem determina o potencial e as limitações do ser humano no que diz respeito a aprendizagem.
3- A intervenção psicopedagógica, que é uma ferramenta que pode e deve ser usada por profissionais competentes (psicopedagogo, psicólogo, fonoaudiólogo, etc.) sempre que se fizer necessário para que se possa ajudar a criança em seu processo de aprendizagem.
São muitas as escolas que ainda fazem uso do modelo didático, ou seja aquele no qual o professor fala e o aluno ouve, na maior parte do tempo.Este modelo apresenta os se-guintes aspectos negati-vos: é excessivamente estruturado; é totalmente controlado pelo adulto; faz usos de recursos pouco naturais para o aluno e torna a aprendizagem totalmente passiva.
Observamos que crianças muito novas, aprendendo uma segunda língua, têm dificuldade em relacionar e processar conteúdos que não tem significado imediato e real para elas. Além disso suas habilidades lingüísticas são ainda pouco desenvolvidas, até mesmo na língua materna. É necessário portanto que a aprendizagem se faça da forma mais concreta e natural possível, envolvendo o maior número de experiências possíveis. Para estas crianças, o processo de generalização ainda é reduzido, daí a necessidade de viven-ciarem bastante as experiências novas, de forma a assimilá-las ao seu conhecimento anterior.
O interesse do aprendente não é de imediato o uso de frases gramaticalmente corretas, mas sim poder se comunicar com o mundo que o cerca e interagir com os outros aprendentes neste novo código. Portanto o praticar excessivo e extremamente repetitivo de estruturas gramaticais corretas não deveria ser o enfoque primordial no ensino bilingüe. Uma vez que a criança comece a dominar este outro código e consiga compreendê-lo, automaticamente ela se tornará capaz de corrigir-se conforme os modelos a sua volta, da mesma forma que ela tem esse tipo de atitude em relação a sua língua materna. O modelo didático pode se tornar desinteressante para o aprendente que por conseguinte se aliena do processo de aprendizagem, levando muitas vezes o professor a interpretar tal atitude como um indício de que o aluno seja incapaz ou não tenha aptidão para a aprendizagem bilíngüe.

UMA ABORDAGEM NATURAL
É preciso ensinar a língua de modo integrado e não separar forma e funcionalidade. Isto não significa que não seja possível, em determinados momentos, uma abordagem mais acadêmica e portanto mais estruturada. Porém o aprendente deverá ter sempre a certeza de que está aprendendo uma outra língua porque esta lhe será útil e que portanto tal aprendizado possui um significado real. Se, por exemplo, a criança ao ser introduzida ao código escrito da língua não imaginar que esta é também uma outra forma de comunicação entre ela e seus “amiguinhos”, ela não verá objetivos imediatos em aprender a ler e escrever e não se interessará em fazê-lo.
Como exemplo da força do desejo de aprender relatarei a seguir um caso real: um aluno X, de nacionalidade argentina e portanto falante de espanhol, foi colocado aos 8 anos em um curso de inglês para crianças. Depois de repetir o curso básico duas vezes, foi sugerido a seu pai que o retirasse do mesmo, com a afirmação de que X “não tinha aptidão para línguas”. Seu pai, dois anos mais tarde, foi transferido para Londres e a família o acompanhou.
X foi então matriculado numa escola para nativos e não apresentou problemas para aprender uma outra língua. Houve aí a compreensão por parte da criança do quanto era necessário ela aprender este novo código, sem o qual não poderia se socializar nem sobreviver na nova sociedade.
Mais tarde novamente seu pai foi transferido para o Brasil e, uma vez mais X aprendeu rapidamente outro código: a língua portuguesa. Hoje X é fluente em três línguas, quando havia sido declarado a seu respeito que ele não tinha aptidão para línguas!
Pesquisas recentes têm provado que o processo de construção do conhecimento humano ocorre mais rápido se a abordagem for natural. A abordagem natural promove um aumento significativo na atenção do aprendente e um maior interesse pelos conteúdos propostos. A possibilidade de sucesso é portanto muito maior.
Para uma abordagem natural são necessárias estratégias específicas:
a) Adaptar os objetivos ao nível real de desempenho e interesse da criança.
b) Estruturar o ambiente de tal maneira que a criança deseje e possa realizar as tarefas propostas.
c) Responder à iniciativa da criança com solicitações que sejam semelhantes aos objetivos por ela propostos, ajudando-a para ser bem sucedida.
d) Estimular e reforçar suas tentativas de comunicação, dando-lhe sempre atenção.
e) Criar situações em que ela tenha o interesse e o desejo de aprender a falar usando este novo código.
f) Permitir a criança um maior tempo para elaborar suas respostas.
g) Criar situações de desafio para a criança, de forma que ela terá que reagir, fazendo assim uso
da linguagem, mesmo ainda que precariamente (por exemplo : jogos, competições, etc.)
h) Quebrar a rotina criando situações diferentes das do cotidiano, fazendo com que a criança tenha que se manifestar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A criança bilingüe na verdade é aquela que pensa também na segunda língua, o que só acontece quando ela é criada num ambiente no qual ambas as línguas são faladas naturalmente.
Para que as crianças bilingües possam alcançar o êxito no processo de aprendizagem, devemos ter em mente que elas precisam ser capazes de resolver de 60% a 70% das atividades que lhes sejam propostas, o que significa ser necessário muito cuidado na escolha das mesmas por parte do professor.
Prevenção é a palavra chave e é tão importante que atualmente vem sendo constantemente enfocada em periódicos publicados nos Estados Unidos e na Europa sobre educação bilingüe – “The Bilingual Family Newsletter” – os quais são distribuídos para todas as escolas bilingües e enviados para as escolas americanas fora do país. Neles são enfatizados temas tais como o Aprendizado da Segunda Língua, Dicas para Educação de Crianças Bilingües, Bilingüismo não é Fácil e outros. Segundo este mesmo periódico,”língua, cultura e identidade estão relacionados de várias formas e é por isto mesmo que o poliglotismo pode causar um impacto no desenvolvimento da personalidade do indivíduo...” (vol.15 N.2), no que se poderia concluir dizendo que tal impacto, com certeza, se reflete na aprendizagem do mesmo, positiva ou negativamen-te, dependendo da forma como esta acontece.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKER, Collin. Foundations of Bilingual Education and Bilinguism. Multilingual Matters. England. 1997.
CLAY, Mary M. The Early Detection of Reading Difficulties. Heineman Education Books, Inc. 3th ed. Hong Kong. 1989.
FERRERO, Emilia & Teberosky, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Artes Médicas. 1987
NESSEL, Denise D. & Jones, Margaret B. The Language Experience Approach – “A Handbook for Teachers”. Teachers College Press. New York. 1988.
OPPER, Sylvia & Ginsgurg, Herbert. Piaget´s Theory of Intelectual Development – An Introduction. Prentice Hall Inc. New Jersey. 1969.
PIAGET, Jean. A psicologia da Criança. Difusão Européia do Livro. 2a ed. São Paulo. 1973.
RHODES, Lyn K. & Curt, Dudley. Readers and Writers with a Difference – A Holist Approach to Learning Disable and Remedial Studies. Heineman Education Books Inc. Canadá. 1977.
THE BILINGUAL FAMILY NEWSLETTER [In: News and Views for Intercultural People]. 1998, Vol. 15 N.3 Seven Grafics. Inglaterra.
VISCA , Jorge. Psicopedagogia Novas Contribuições. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1991.
WEISS, Maria Lucia L. Psicopedagogia Clínica – Uma Visão Terapêutica. Artes Médicas. Porto Alegre. 1992.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Duas línguas, duas culturas? A construção da identidade cultural de indivíduos bilíngues

Duas línguas, duas culturas?
A construção da identidade cultural de indivíduos bilíngues

por Antonieta Heyden Megale


RESUMO: O presente estudo tem como objetivo refletir sobre a relação entre bilinguismo e biculturalismo. Entre outros aspectos, com o suporte teórico de Harmers e Blanc (2000) e Grosjean (1972), analisa os fenômenos de enculturação, aculturação e deculturação e suas funções no processo de determinação de habilidades bilíngues e de identidade cultural do indivíduo bilíngüe. Os resultados apontam para evidências de que escolas bilíngues e internacionais desempenham papel importante na formação da identidade cultural das crianças que se encontram nesse ambiente, devendo, desse modo, adotar uma série de medidas visando a integração das culturas que coexistem em seu ambiente.

Palavras-chave: Bilingue; Bilinguismo; Cultura; Identidade; Educação bilíngue

Introdução

A realização deste trabalho foi motivada pela falta de dados e informações a respeito de programas implementados em instituições bilingues no Brasil e de como estes programas interferem nos processos de socialização e construção da identidade cultural, dentro do contexto escolar.
As escolas bilingues e as escolas internacionais, como afirma Sgarioni (2003), foram em princípio criadas para acolher filhos de estrangeiros que moravam ou estavam de passagem pelo Brasil. No entanto, essas escolas são cada vez mais procuradas por pais brasileiros que preferem dar a seus filhos educação nos padrões do primeiro mundo. A procura por escolas internacionais e bilingues tem como principais motivos; o aprendizado de idiomas, o conhecimento de outras culturas e a habilitação dos jovens para completar seus estudos no exterior.
Desde 2005, foram abertas, no Brasil, quarenta novas escolas que utilizam dois idiomas simultaneamente - um aumento de 25% em dois anos. Estas escolas bilingues visam, em sua totalidade, promover o bilinguismo, oferecendo um ambiente escolar em que duas línguas são consideradas oficiais. Tais escolas, preocupadas com fenômenos como a globalização, têm também como objetivo o desenvolvimento do biculturalismo, paralelamente ao bilinguismo.
Porém, muitas questões relacionadas ao desenvolvimento da identidade cultural permanecem, por exemplo:
- O desenvolvimento do bilinguismo conduz naturalmente ao desenvolvimento do biculturalismo?
- Se monolíngues pertencem a uma cultura, automaticamente os bilingues pertencem a duas culturas?
- Ou de fato existe a combinação de duas diferentes culturas?
Dentro do apresentado acima, este trabalho tem como objetivo discutir a construção da identidade cultural de indivíduos bilingues.
De acordo com Grosjean (1982:157), algumas pessoas que utilizam duas línguas cotidianamente são, na verdade, monoculturais. De outra feita, uma pessoa monolingue pode ser bicultural, como é o caso de um escocês falante da língua inglesa. Harmers e Blanc (2000:119) explicam que a relação entre bilinguismo, escolha da língua e identidade cultural em indivíduos bilingues é muito complexa e depende de diversos fatores, havendo indícios de que experiências bilingues na primeira infância influenciam o desenvolvimento da identidade cultural.
Este estudo busca, portanto, contribuir para que instituições bilingues, nas quais diferentes culturas coexistem, promovam processos de socialização e um ambiente favorável a que seus alunos integrem harmoniosamente as culturas que se encontram em contato no ambiente.
Uma criança em contato com outra cultura, enquanto sua própria cultura não é valorizada, pode perder sua própria identidade cultural, para então adquirir a identidade cultural do grupo dominante. Indivíduos bilingues podem pelos mais diversos motivos se recusarem a pertencer a ambos os grupos culturais, ou mesmo ao rejeitarem sua própria cultura, não serem aceitos como membros da cultura dominante e, nesses casos, podem desenvolver variados problemas emocionais e psicológicos.

1. A identidade cultural da criança bilingue


1.1 Cultura


Conforme aponta Machado (2002:17), a ideia de cultura foi primeiramente desenvolvida na Grécia e o termo denominado foi paideia. Esta se define como a ação pela qual o homem realiza sua verdadeira natureza, desenvolvendo a filosofia e a consciência da vida em comunidade.
Além disso, Machado (2002:18) esclarece que com o desenvolvimento da sociedade em geral, o termo cultura foi se modificando e, no final do século XVIII, o termo germânico Kultur era empregado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa civilization referia-se às conquistas materiais de um povo.
Ambos os termos foram sintetizados por Tylor no vocabulário inglês culture. Segundo Tylor (1873 apud HARMERS e BLANC, 2000:115), cultura é uma entidade complexa que compreende uma série de sistemas simbólicos, incluindo: conhecimentos, normas, valores, crenças, língua, arte, costumes, hábitos e habilidades aprendidas por indivíduos enquanto membros de uma dada sociedade (TYLOR, 1873 apud HARMERS e BLANC, 2000:115). Conforme aponta Machado (2002:18), com a definição de Tylor temos a alusão a todas as possibilidades de realização humana, em uma só palavra, além de marcarmos intensamente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à ideia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.
Harmers e Blanc (2000:115) afirmam que o conceito de cultura, como utilizado atualmente, foi definido pela primeira vez por Tylor. Segundo Machado (2002:18), Tylor procurou demonstrar como a cultura pode ser objeto de estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural, que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capaz de proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural.
Conforme defendem Harmers e Blanc (2000:115), o conceito de cultura proposto por Tylor tem sido trabalhado continuamente por diversos teóricos. Linton (1945:32), por exemplo, insiste que cultura não é apenas uma configuração de comportamentos aprendidos, mas também todos os significados simbólicos que se encontram atrelados à determinada cultura. Além disso, os componentes de cultura são transmitidos de membro para membro em uma sociedade e então, compartilhados entre eles.
Como resume Machado (2002:24), o conceito de cultura pode ser relacionado aos seguintes pontos:
- a cultura determina o comportamento do homem e justifica suas realizações;
- o ser humano age de acordo com os seus padrões culturais, sendo seus instintos parcialmente anulados ao longo do processo evolutivo por que passa;
- a cultura é um meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos, para tanto, ao invés de modificar o seu aparelho biológico, o homem altera o seu aparelho superorgânico;
- ao adquirir cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que de atitudes geneticamente determinadas;
- a cultura determina o comportamento humano e a sua capacidade artística ou profissional;
- a cultura é um processo acumulativo, resultante de toda experiência histórica das gerações anteriores.
Machado (2002:24) ainda conclui que tudo o que o homem faz, aprendeu com seus semelhantes por meio de um processo acumulativo. Desta forma, por meio da comunicação oral, a criança recebe informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive. Tal fato envolve um processo cultural: a língua humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um código articulado de comunicação oral. Acrescenta-se a esse fato, que a língua é a principal ferramenta para a internalização da cultura pelo indivíduo. Os autores ressaltam ainda que embora cultura e língua não existam independentemente, elas não são homólogas.
Ainda segundo Harmers e Blanc (2000:116), quanto mais de uma cultura, ou mais de uma língua estão em contato na mesma sociedade, cultura e língua não são isomorficamente distribuídas. E tendo-se em mente que a língua é um componente da cultura, membros de uma mesma sociedade que não partilham da mesma língua, não partilham de todos os significados e comportamentos daquela sociedade. No entanto, sociedades podem ser bastante diferenciadas culturalmente e ao mesmo tempo falar variedades da mesma língua.
A questão do biculturalismo foi abordada por Grosjean (1982:157) em seu livro Life with Two Languages. Biculturalismo é por ele definido como a coexistência e / ou a combinação de duas culturas distintas. Grosjean levanta as seguintes questões: se monolingues pertencem a uma cultura, automaticamente bilingues pertencem a duas culturas? Ou, de fato, existe a combinação de duas diferentes culturas? De acordo com Haugen (1956:9), a resposta é negativa, bilinguismo e biculturalismo não são necessariamente coexistentes.
De acordo com Grosjean (1982:157), algumas pessoas que utilizam duas línguas cotidianamente são, na verdade, monoculturais. De outra feita, uma pessoa monolingue pode ser bicultural, como é o caso de um escocês falante da língua inglesa.

1.2 Características culturais

Smolicz (1979:106) afirma que determinados valores culturais serão particularmente ressaltados na construção da identidade cultural de membros pertencentes a um grupo específico. No entanto, estes mesmos valores serão relativamente irrelevantes para a formação da identidade cultural de outro grupo. Este modelo de valores primordiais sugere que cada cultura possui um número de características básicas essenciais para a transmissão e a manutenção daquela cultura.
De acordo com Harmers e Blanc (2000:116), em uma sociedade multicultural, governada por consenso e não por coerção, existe uma variedade de relações de poder entre o grupo dominante e os subordinados. Consequentemente, uma série de valores compartilhados por meio dessas culturas pode se desenvolver. Estes valores compartilhados são o que Smolicz (1984) chama de valores primordiais de maior importância: um indivíduo pode, então, possuir alguns valores específicos de sua comunidade cultural, enquanto ao mesmo tempo aderir valores sociais mais abrangentes de outra determinada comunidade cultural. Todavia, de acordo com Grosjean (1982:158), alguma espécie de choque cultural é inevitável e são criados pela combinação das pequenas ou grandes diferenças entre os grupos em questão: hábitos alimentares, educação dos filhos, organização familiar, crenças religiosas, nível e tipo de educação, caráter rural ou urbano da comunidade, entre outras diferenças.
Harmers e Blanc (2000:117) apontam para o fato de quando a língua é o valor primordial de um grupo cultural, esta deve ser um fator importante na determinação da identidade cultural de seus membros.
A extensão em que os valores primordiais afetam a identidade cultural de um bilingue depende do padrão desses valores, resultante de um contato cultural específico e das circunstâncias sociais que formam o tipo de experiência bilingue.
Ainda segundo Harmers e Blanc (2000:118), a situação na qual as línguas e culturas estão em contato engloba uma variedade de casos, tais como:
- o indivíduo fala uma língua em casa e esta é diferente da língua falada na comunidade ou sociedade;
- o indivíduo fala duas línguas em casa, sendo uma delas a língua da comunidade ou da sociedade;
- o indivíduo fala duas línguas em casa e ambas são utilizadas em duas comunidades em contato na sociedade;
- o indivíduo fala duas línguas em casa e nenhuma delas é utilizada na comunidade ou sociedade.
Harmers e Blanc (2000:118) afirmam que os casos descritos acima incluem crianças de casas bilingues, assim como crianças de famílias imigrantes que vivem em uma sociedade na qual duas línguas podem ou não estar em contato. Quando pelo menos duas línguas estão em contato na sociedade, relações de poder entre os grupos etnolinguísticos influenciarão o desenvolvimento da identidade cultural da criança.

2. O desenvolvimento da identidade cultural

Tajfel (1974:134) explica que a identidade cultural resulta do conhecimento que o indivíduo tem sobre ele pertencer a um ou diversos grupos sociais, isto também inclui todos os valores e significados afetivos atrelados a este pertencimento.
Le Page e Tabouret - Keller (1985:182) afirma que o indivíduo se comporta de acordo com padrões comportamentais de grupos com que ele acha que é desejável se identificar, sendo que é necessário que este indivíduo:
- seja capaz de identificar os grupos;
- tenha acesso adequado aos grupos e habilidade para analisar os padrões comportamentais dos mesmos;
- esteja motivado o suficiente para se juntar a um dos grupos e esta motivação seja reforçada positivamente pelos grupos;
- tenha habilidade para modificar seu comportamento.
Segundo afirmam Harmers e Blanc (2000:119), se em dada sociedade, certos grupos podem ser identificados em termos de etnia, características culturais e linguísticas, estes se tornarão traços salientes, percebidos como tais pelo indivíduo e utilizados por ele para categorização étnica, cultural e linguística.
No processo de comparação social de um membro específico pertencente a determinado grupo, o mesmo tenderá geralmente a favorecer os traços salientes de seu próprio grupo em dimensões perceptuais, atitudinais e comportamentais. Além disso, ele tenderá a utilizar as características de seu próprio grupo como padrão para julgar os outros grupos.
Ainda segundo Harmers e Blanc (2000:119), embora pouco se saiba sobre o processo de aquisição da identidade cultural, alguns estudos sugerem que esse processo começa bem cedo e que na idade de seis anos, as crianças já desenvolveram algum tipo de identidade cultural. Aos seis anos a criança já possui o conceito de identidade étnica que a diferencia dos outros, isto é, dos estrangeiros. Deve ser observado, contudo, que o conceito de estrangeiro para as crianças difere dos adultos.
Aboud e Skerry (1984:12) propõem um modelo de três estágios de desenvolvimento de atitudes étnicas. No primeiro estágio, a criança aprende a se identificar e a se avaliar, comparando-se com outros indivíduos que são diferentes de si. Então, a criança se percebe como membro de um grupo e percebe os outros como membros de outros grupos; neste estágio, a criança percebe similaridades dentro de um determinado grupo e diferenças entre eles. Finalmente, a criança é capaz de focar nela mesmo e nos outros como indivíduos e também como membros de um grupo.
Aboud (1977:293) esclarece ainda que para uma criança identificar-se positivamente com membros de outro grupo étnico, deve primeiro perceber este grupo de uma maneira positiva. Se a língua é um valor primordial étnico e existe incongruência entre língua e etnicidade, a criança não será capaz de identificar-se com outra pessoa, especialmente se esta pessoa é membro de seu próprio grupo, mas fala a língua de outro grupo.
Harmers e Blanc (2000:121) explicam que a relação entre bilinguismo, escolha da língua e identidade cultural em indivíduos bilingues é muito complexa e depende de diversos fatores. Há indícios de que experiências bilingues na primeira infância influenciam o desenvolvimento da identidade cultural; isto pode ocorrer devido a dois fatores: a criança não vê a língua como uma característica de identidade importante ou porque a criança bilingue desenvolve processos de descentralização e reciprocidade mais cedo do que as monolingues. Finalmente, as preferências dos bilingues não coincidem necessariamente com características de identificação cultural.
Ainda de acordo com Harmers e Blanc (2000:121), o desenvolvimento da identidade cultural resulta tanto de fatores psicológicos como sociológicos. A relação entre bilinguismo e identidade cultural é recíproca: o bilinguismo influencia o desenvolvimento da identidade cultural e este influencia o desenvolvimento do bilinguismo. Por outro lado, diferenças na construção da identidade cultural são mais ou menos toleradas por diferentes comunidades. Identidade cultural, assim como o desenvolvimento da linguagem, é uma consequência do processo de socialização que a criança experiencia. Este é um mecanismo dinâmico desenvolvido pela criança e pode ser modificado por eventos sociais e psicológicos durante a vida do indivíduo. É importante ressaltar que uma criança bilingue não desenvolve duas identidades culturais, mas integra ambas as culturas em uma única identidade. (GROSJEAN, 1982:160)
Segundo Diebold (1968:239), desordens de personalidade ou emocionais são comumente atribuídas ao bilinguismo, em virtude do desenvolvimento deste frequentemente ocorrer simultaneamente à socialização de um grupo em situação minoritária como é o caso de crianças imigrantes. De acordo com Harmers e Blanc (2000:121), deve-se ressaltar que os casos citados por Diebold em sua grande maioria referem-se a crianças bilingues pertencentes a classes sociais desprivilegiadas e por isso, essas crianças sofrem grande pressão para adquirir a nova língua.
Entretanto, como afirmam Harmers e Blanc (2000:122), a atribuição de desordens emocionais e afetivas ao bilinguismo baseia-se em suposições controversas, pois sabe-se que existem diferenças psicológicas fundamentais entre grupos culturais e essas diferenças são mutuamente exclusivas e necessariamente refletem na personalidade do indivíduo.
Uma desordem emocional atribuída ao bilinguismo é a anomia, um estado emocional complexo, envolvendo sentimentos de alienação e isolamento. A anomia é frequentemente associada a sentimentos de ansiedade, falta de flexibilidade cognitiva e afetiva e perda de identidade. Tal estado pode ser causado tanto por fatores sociológicos como psicológicos, porém, a anomia não é necessariamente resultado de experiências biculturais, ela é resultado de padrões de condições socioculturais nos quais a socialização ocorre. No caso, já citado, de uma criança que se encontra em contato com outra cultura e sua própria cultura não é valorizada, esta criança pode perder sua própria identidade cultural para então adquirir a identidade cultural do grupo dominante ou pode se recusar a pertencer a ambos os grupos culturais e, neste caso, a criança pode desenvolver anomia. Contudo, se esta criança se encontra em um ambiente que encoraja a valorização de ambas as culturas, ela estará em condições de integrar elementos das duas culturas em uma harmoniosa identidade bicultural. Por harmoniosa, não se deve entender que tal processo estará livre de tensões, contradições e conflitos, e sim que o indivíduo encontra soluções pessoais sem ter que negar uma das culturas. (HARMERS e BLANC, 2000:122).
Grosjean (1982:161) afirma que a tentativa de integrar características de duas diferentes culturas pode levar alguns indivíduos a sentirem que eles não pertencem a nenhuma das culturas em questão; esses indivíduos são então denominados indivíduos marginais e isto resulta em solidão, hostilidade, auto-piedade, desorientação e medo do ridículo.

2.1 Enculturação, aculturação e deculturação
Harmers e Blanc (2000:123) esclarecem que para entender os mecanismos pelos quais a criança aceita ou rejeita determinada cultura, devem ser observados os processos de internalização da cultura.
De acordo com Taft (1977:131), para tornar-se membro de uma determinada sociedade, a criança é enculturada a modos particulares e a um estilo de vida que constitui sua cultura e, como consequência, torna-se culturalmente competente. A criança deve adquirir meios para que seu comportamento possa ter significado para outros membros da sociedade e pelos quais ela atribua significado ao comportamento de outros membros; isto é, a criança deve aprender a significar e a se comunicar. Segundo Harmers e Blanc (2000:123), enculturação é parte do processo de socialização e começa com a socialização primária. Se a criança é enculturada em um ambiente bicultural, esta enculturação envolverá duas culturas. Porém, se a criança vive em uma casa monocultural e a comunidade local pertence a outra cultura, a enculturação começa na sua primeira cultura – a de casa, na qual a socialização primária ocorre e ela terá de lidar com a enculturação na segunda cultura, incluindo a língua daquela cultura posteriormente. Isto também ocorre a uma criança ou adulto que imigram a um país de cultura diferente.
Ainda de acordo com Harmers e Blanc (2000:123), quando a criança já passou pelo processo de enculturação e está em contato com uma segunda cultura, ela terá de se aculturar para se ajustar a nova cultura. Por aculturação entende-se que, ao se comunicar com membros desta nova cultura, a criança deve ajustar seu comportamento da cultura anterior para essa nova cultura. Aculturação compreende “uma combinação de aquisição de competências para se comportar de forma culturalmente relevante e a adoção de regras e atitudes culturalmente definidas com relação àquele comportamento” (TAFT, 1977 apud HARMERS e BLANC, 2000:123). Harmers e Blanc (2000:123) esclarecem que quanto mais avançado o processo de enculturação, mais complexo é o processo de aculturação. Num processo de aculturação harmonioso, o indivíduo adquire regras culturais e habilidades linguísticas da nova cultura e as integra de forma apropriada à sua primeira cultura. Em outras palavras, sua identidade se torna bicultural. Nesse processo ele também adquire a língua da nova cultura e a sua língua nativa pode ser mantida ou não de acordo com as circunstâncias. Por outro lado, o adulto que se adapta a uma nova cultura deve integrar novos elementos culturais, incluindo a língua, a uma identidade já completamente estabelecida. De acordo com as exigências profissionais, esse adulto deve também adquirir habilidades linguísticas mais ou menos desenvolvidas (bilinguismo adulto). Embora haja pouca evidência empírica de aculturação adulta, pode-se dizer que quanto mais velho o indivíduo, sua adaptação cultural será mais difícil.
Grosjean (1982:160) estabelece que há indivíduos que não são capazes de se ajustar à cultura a que se encontram expostos, ou por escolha, ou porque são rejeitados pela sociedade. Contrariando essa ideia, existem aqueles indivíduos que se ajustam em demasia a essa nova cultura. De acordo com Harmers e Blanc (2000:124), quando o indivíduo se adapta a nova cultura à custa de sua primeira cultura, fala-se do processo de deculturação. Grosjean (1982:160) esclarece que este super ajustamento a esta nova cultura pode ser devido à total rejeição da cultura nativa ou a um forte desejo de ser aceito como membro da nova cultura. Tal ajustamento exagerado frequentemente desencadeia rápido abandono da cultura original e, portanto, não se pode falar em biculturalismo.
Entre os dois extremos anteriormente descritos, Grosjean (1982:160) afirma que se pode encontrar indivíduos que de certa forma se ajustaram a certo nível de biculturalismo. O nível alcançado por cada pessoa depende de uma série de fatores, muitos dos quais similares aos fatores que afetam a manutenção da língua e a alternância de código, como, por exemplo, uso da língua, casamentos entre indivíduos pertencentes a grupos étnicos diversificados, tamanho do grupo minoritário, padrões de imigração e concentração geográfica entre outros. Diferentemente do bilinguismo no qual as duas línguas são mantidas separadamente, o biculturalismo comumente não envolve a manutenção de duas culturas e dois comportamentos individuais separadamente. Pouco se sabe sobre indivíduos nos quais duas culturas coexistem, mas não se combinam; mais comuns são os indivíduos que combinam características de duas diferentes culturas. (GROSJEAN, 1982:160)
O tipo de bilinguismo que será desenvolvido não é independente dos processos de aculturação ou deculturação. Harmers e Blanc (2000:124) explicam que aprender uma nova língua, se tornar fluente e ao mesmo tempo manter ou esquecer a língua nativa é parte integral da adaptação cultural. Os processos de enculturação, aculturação e deculturação são partes importantes na determinação de habilidades bilingues e da identidade cultural do indivíduo bilingue.

O papel da escola bilingue na formação da identidade cultural

O presente estudo revela a importância da língua como marca significativa na formação da identidade cultural de indivíduos bilingues. Como afirmam Harmers e Blanc (2000:124), o bilinguismo influencia o desenvolvimento da identidade cultural e esta influencia o desenvolvimento do bilinguismo.
Qual é, então, o papel da escola bilingue, na formação da identidade cultural das crianças que se encontram nesse ambiente?
A escola bilingue deve adotar uma série de medidas visando a integração das culturas que coexistem em seu ambiente. Neste sentido, Smolicz (1979:107) argumenta que cada cultura detem um número de características básicas essenciais para sua transmissão e manutenção. Os valores específicos de cada comunidade cultural se encontram em contato no ambiente escolar e devem ser, portanto, valorizados e respeitados.
O status atribuído às línguas em contato no ambiente escolar é de suma importância na formação da identidade cultural de alunos bilingues. As duas línguas devem ser suficientemente valorizadas no desenvolvimento cognitivo da criança e a aquisição da segunda língua deve ocorrer, consequentemente, sem perda ou prejuízo da língua materna. Deve-se levar sempre em consideração que as escolhas linguísticas dos alunos se baseiam também em aspectos psicológicos e afetivos.
Segundo Harmers e Blanc (2000:124), o fator mais importante na experiência bilingue é que ambas as línguas devem ser igualmente valorizadas. Para aqueles que optaram por um modelo de educação bilingue é necessário o estudo e planejamento permanente de como isto será realizado.
Cloud (2000:55) afirma que programas de educação bilingue devem ter como objetivo, não apenas que seus alunos obtenham a proficiência necessária para utilizar ambas as línguas adequadamente em contextos formais e informais, mas que desenvolvam também compreensão e apreciação pela cultura do grupo associado à segunda língua. Tais programas, que são denominados Programas Bilingues Aditivos, têm como objetivo o aprendizado de uma nova língua e cultura, enquanto os alunos continuam o desenvolvimento de sua própria língua e cultura. De acordo com a autora, essa denominação foi primeiramente utilizada por Wallace Lambert da Universidade McGill em Montreal em 1972, com a intenção de diferenciar este tipo de programa daqueles nos quais os alunos terminam por desistir ou perder sua língua materna e sua cultura. Um exemplo deste segundo caso são os alunos pertencentes a grupos minoritários, como os indígenas brasileiros, que são encorajados a assimilar a língua e a cultura do grupo dominante o mais rápido possível para que assim tenham mais oportunidades em nossa sociedade. Dessa forma, se sentem desvalorizados e muitas vezes envergonhados de se denominarem indígenas. Ao desistirem de sua própria identidade cultural, são, muitas vezes, rejeitados pelo grupo dominante, o que contribui para sua aculturação.
Indo mais além, Cloud (2000:55) salienta que muitas pesquisas têm demonstrado que programas bilingues que se baseiam na crença de que a melhor forma de aprender um segundo idioma é se concentrar e trabalhar apenas com a segunda língua, criam um ambiente desfavorável ao aprendizado, pois forçam os alunos a renegarem parte essencial do que são. Somando-se a isto, a autora afirma que tais programas subestimam a habilidade natural dos indivíduos para aprender duas línguas e acomodar diferentes perspectivas culturais eficientemente. Na verdade, esses programas se contentam com o monolingüismo e com o monoculturalismo, quando sabe-se das vantagens oferecidas pelo bilinguismo e biculturalismo.
Um Programa Bilingue Aditivo reafirma a crença de que é possível adquirir fluência em mais de uma língua quando o ambiente e o programa escolar são adequados. Educadores capazes de entender esse conceito identificam e estabelecem as condições cognitivas e afetivas necessárias para o sucesso escolar de seus alunos. Desse modo, são hábeis em organizar um currículo que propicie adequada exposição a ambas as línguas e que ofereça diversificadas experiências de aprendizado nas duas línguas do programa.
O status dos dois idiomas compreendidos nesse ambiente assim como o das culturas associadas a essas línguas é fundamental para a obtenção de indivíduos bilingues aditivos. Conforme defende Cloud (2000:55), igualar o status de duas línguas e duas culturas não é uma tarefa sempre fácil.

Considerações Finais

As escolas bilingues brasileiras são em sua grande maioria destinadas a crianças e jovens que têm como objetivo o aprendizado de um segundo idioma. Nesse caso, deve-se dar ênfase à cultura associada a esta segunda língua, pois não há dúvida de que a maioria dos alunos já valoriza o português e a cultura brasileira. Essa estratégia tem como objetivo propiciar a todos os alunos oportunidades para utilizarem a segunda língua assim como para se familiarizarem com outra cultura. No entanto, tal estratégia, não se aplica, por exemplo, a questão da educação indígena no Brasil; por se tratarem de um grupo minoritário, é essencial que se priorize os vínculos com a língua e a cultura materna, ao mesmo tempo em que também vivenciam experiências de aprendizado na segunda língua.
Como afirmam Harmers e Blanc (2000:125), a educação bilingue é determinada por fatores históricos, sociais, ideológicos, psicológicos e variadas relações de poder. Todos esses fatores devem ser analisados quando se decide pelo modelo ou programa de educação bilíngüe que será empregado.
No decorrer deste trabalho, muitas outras questões referentes à educação bilingue, ao bilinguismo e à formação da identidade cultural apareceram. Porém, devido às próprias restrições de tempo, o estudo foi concluído e algumas das indagações que surgiram são aqui abordadas como sugestões para trabalhos futuros:
- atividades curriculares que visem promover o biculturalismo;
- o papel da família no aprendizado bilingue;
- problemas emocionais e psicológicos relacionados à perda da identidade cultural.
- a questão indígena e o binômio linguagem / identidade social
Estas são apenas sugestões para futuros trabalhos. Outras ideias podem ser acrescentadas ou mesmo estas podem ser adaptadas à realidade de cada pesquisador


ABSTRACT: This paper aims at reflecting on the relation between bilingualism and biculturalism. Among many aspects, with the theoretical support of Harmers and Blanc (2000) and Grosjean (1972), it analyses the phenomenon of enculturation, acculturation and deculturation and their roles in the process of determining bilingual abilities and the cultural identity of the bilingual individual. The results show that bilingual schools play an important role in shaping the cultural identity of children who are in this environment and, therefore, they should adopt a series of measures aiming at the integration of cultures that coexist in their environment.

Keywords: Bilingual; Bilingualism; Culture; Identity; Bilingual education

Referências Bibliográficas
ANTUNES, C & TODESCHINI, M. Yes, nós somos bilingues. Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/educacao/conteudo_247947.shtml. Acesso em 2 de maio de 2008.
ABOUD, F. Interesting ethnic information: A cross-cultural developmental study. In: Journal of Cross-Cultural Psychology, 7, 1977.p.289-300
ABOUD, F. & SKERRY, S. The Development of Ethnic Attitudes. In: Journal of Cross-Cultural Psychology, 15, 1984. p. 3-34
CLOUD, N et al. Dual Language Instruction – A Handbook for Enriched Education. Boston: Thomson & Heinle, 2000.
DIEBOLD, A. The consequences of early bilingualism on cognitive development and personality formation. In E. Norbeck, D. Price-Williams, & W.M. McCord (Eds.), The Study of Personality: An Inter-Disciplinary Appraisal. New York: Hold, Rinehard, & Winston, 1968.
GROSJEAN, F. Life with Two Languages: An Introduction to Bilingualism. Cambrigde, MA: Harvard University Press, 1972.
HARMERS, J e BLANC, M. Bilinguality and Bilingualism. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
HAUGEN, E. Bilingualism in the Americas: A Bibliography and Research Guide. University of Alabama: The American Dialect Society, 1956.
LEPAGE, R. & TABOURET-KELLER, A. Acts of Identity. Creole-based Approaches to Language and Ethnicity. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
LINTON, R. The Cultural Background of Personality. New York and London: D. Appleton-Century Co., 1945.
MACHADO, Cristina Gomes. Multiculturalismo: muito além da riqueza e da diferença. Rio de Janeiro: DP & A, 2002.
SGARIONI, M. A fôrma de cidadão do mundo. Folha de São Paulo (São Paulo), 27/05/2003. Disponível em :http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u419.shtml, acesso em 28/12/2004.
SMOLICZ, J. Culture and Education in a Plural Society. Canberra: The Curriculum Development Centre, 1979.
SMOLICZ, J. Minority languages and the core values of culture: Changing policies and ethnic response in Australia. In: Journal of Multilingual and Multicultural Development, 1984. P. 23-41
TAFT, R. Coping with unfamiliar cultures. In N. Warren (Ed.). Studies in cross-cultural psychology. London: Academic Press, 1977.p. 125-153.
TAJFEL, H. Social identity and intergroup behaviour. In: Social Science Information 13, 1974. p. 65-93.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Famper lança pós-graduação em educação bilingue em SC

Sáb, 25 de Julho de 2009 00:00
Originalmente disponível em http://www.jornalnovotempo.com.br/economia/famper-lanca-pos-graduacao-em-educacao-bilingue.html

O Brasil não é mais considerado um país monolíngue, mas sim plurilíngue. Este reconhecimento demanda ações que possam ampliar suas articulações com os outros países, principalmente os do MERCOSUL. Em vista desta a Faculdade de Ampére - FAMPER juntamente com o IPOL - Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística - www.ipol.org.br - Florianópolis/SC, passam a oferecer para a região sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina, uma proposta nova em relação ao estudo da língua: Especialização em Educação Bilíngue.
O Projeto focaliza diretamente a prática de duas ou mais línguas. A especialização pretende suprir dificuldades relacionadas à prática bilíngue e o ensino da língua estrangeira nas escolas, focando o Espanhol e o Português como línguas de integração regional.

Objetivos
Criar condições de ampliar as relações com países de fronteira como Argentina e Paraguai, bem como outros que falam a língua espanhola como idioma oficial; Oportunizar um espaço bilíngue contemplando os idiomas espanhol e português, como forma de impulsionar a diversificação de conhecimentos que permitam aos profissionais educadores e outros, uma participação mais efetiva no mundo sócio-econômico-cultural dos países envolvidos.
O curso de pós-graduação bilíngue será ministrado por professores argentinos e brasileiros, e está dividido em três módulos:

MÓDULO I: Língua Espanhola (Espanhol I e Espanhol II)

MÓDULO II: Educação Bilíngue (Teoria e prática de ensino bilíngue; Questões políticas de ensino bilíngue; Alfabetização de ensino bilíngue; Letramento de ensino bilíngue; Metodologias de ensino bilíngue; Sistema de ensino bilíngue no Brasil).

MÓDULO III: Seminários e monografia (Metodologia de Pesquisa; Seminário de pesquisa;
Leituras dirigidas como suporte para as pesquisas).

Duração: 360 horas - 18 meses
Dias: sábados alternados (aulas aproximadamente a cada 15 dias)
Horários: das 8h as 12h e das 13h as 17h
Inscrições até: 23/07/09
Início previsto: 25/07/09
Investimento: 1 + 18 parcelas de R$ 220,00 (bônus pontualidade de 10% = R$ 22,00). Valor líquido até o vencimento: R$ 198,00

Ensino de línguas acelera o desenvolvimento cognitivo em crianças

Uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP analisou a influência do bilinguismo precoce sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças

fonte: Agência USP (03.04.2009)
Paulo Roberto Andrade

Em sua tese de doutorado, a psicóloga Elizabete Villibor Flory analisou as vantagens e desvantagens do bilingüismo infantil a partir da teoria da equilibração do psicólogo suíço Jean Piaget.

O estudo foi teórico e sem pesquisas de campo e a pesquisadora fez um grande levantamento de estudos acadêmicos sobre o tema. Ela observou que, nos anos 1960, muitos pesquisadores apontavam prejuízos do bilinguismo na inteligência. Porém, tais pesquisas tinham muitas falhas metodológicas, não considerando a situação sócio-econômica, sócio-cultural, as condições de imigração, o tempo de permanência no país e outros aspectos. Após a década de 1960, apareceram inúmeros trabalhos favoráveis ao bilinguismo. “Mas aí corremos o risco de entrar num outro mito: o de que o bilinguismo aumenta a inteligência. O que também não é verdade” ressalta.

No caso da aquisição, as duas línguas são adquiridas como línguas maternas, o ser humano é totalmente capaz de crescer aprendendo duas línguas, sem sobrecarga intelectual. Uma característica observada diz respeito à mudança de código durante a fala, ou seja, a criança está falando em uma língua e utiliza algumas palavras de outra língua. “Por muito tempo isso foi entendido como um erro na aquisição da língua, pois a criança era analisada num contexto monolíngue, o que não era o caso”, diz Elizabete. “Hoje os pesquisadores entendem essa mudança de código como um processo natural”.

A psicóloga explica que para entender o bilinguismo é preciso esclarecer seu conceito. “A maioria das pessoas acha que um bilíngue é como dois monolíngues numa única pessoa, e não é. Seria necessário que a pessoa vivesse as mesmas experiências nas duas línguas, o que não é possível”. Apesar de listar os diversos tipos de bilinguismo em sua tese, Elizabete se concentrou no tipo precoce, que é aquele em que a segunda língua começa a ser adquirida antes do fim da aquisição da primeira, por volta dos 3 ou 4 anos.

Quanto às vantagens do bilingüismo, o que foi constatado nas pesquisas é que uma criança com boa proficiência em duas línguas, em geral, intensifica o que os especialistas chamam de controle inibitório ou seleção de atenção. “Isso é uma habilidade que utilizamos quando temos vários estímulos para prestar a atenção e precisamos nos focar em apenas um deles” explica a pesquisadora. O controle inibitório, como o próprio nome diz, inibe a atenção aos estímulos menos importantes.

Além disso, muitas pesquisas mostram, além da aceleração no desenvolvimento cognitivo (antecipação da entrada no pensamento operatório), que a criança bilíngue tem uma antecipação na percepção da relatividade dos nomes. Por exemplo, ela sabe que uma mesa pode se chamar mesa, table, tisch (alemão) ou outro nome. A criança entende que o objeto independe do nome que lhe é dado.

Porém, a pesquisadora ressalta que tais resultados não são unânimes, de modo que também há pesquisas nas quais tais vantagens não são encontradas. Nesse contexto, vários autores dizem que as desvantagens não vêm do bilinguismo em si, mas de contextos sócio-culturais de desvalorização da língua e da cultura de origem.

Teoria da equilibração

Elizabete analisou as influências do bilinguismo sobre o desenvolvimento cognitivo a partir a teoria da equilibração de Piaget. Segundo a psicóloga, a presença de duas línguas no ambiente gera um desequilíbrio para a estrutura de conhecimento da criança. “Ao se deparar com uma pessoa falando outra língua, a criança busca a equilibração de seus conhecimentos lingüísticos aprendendo a nova língua”. Essa reequilibração explicaria os casos em que se constatou vantagens.

Porém, é importante que a criança valorize o desafio e queira conhecer a novidade que se apresenta para que essa reequilibração se dê. Se não, o movimento de reequilibração não acontecerá. Por isso, em casos de imigração e desvalorização da cultura e da língua, nos quais a interação fique comprometida, não havendo o interesse da criança em assimilar a nova língua, as vantagens não aconteceriam.

Práticas pedagógicas

A pesquisa esclarece a complexidade do tema do bilingüismo e ajuda a desmistificar algumas idéias pouco divulgadas no Brasil. Segundo a psicóloga, a partir de sua leitura é possível adotar algumas práticas pedagógicas, como tentar configurar o ambiente para que os desequilíbrios se configurem como estímulos ao aprendizado da criança e estejam próximos a estrutura de conhecimento atual dela.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Curso: Alfabetização e letramento na educação bilíngue: aportes teóricos e metodológicos, em São Paulo

Curso no Sindicato dos Professores - Fevereiro 2010
http://www.sinprosp.org.br/escola.asp?mn=2&mes=13&curso=65

Alfabetização e letramento na educação bilíngue: aportes teóricos e metodológicos
Público-alvo: Professores de educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental e demais interessados

Objetivo: Construir uma base teórica que sustente as práticas de alfabetização e letramento propostas a crianças bilíngues com vistas à formação de um usuário competente das línguas na comunicação oral e escrita

Conteúdo: Conceitos de bilinguismo e educação bilíngue; modelos de educação bilíngue presentes no Brasil; conceitos de letramento e alfabetização; o processo de alfabetização em uma perspectiva sócio-construtivista; formação de leitores e de escritores; ensinoaprendizagem de segunda língua: múltiplas perspectivas; análise de situações didáticas em contextos bilíngues; construção coletiva de princípios sobre alfabetização de crianças bilíngues; proposição de alternativas de trabalho na educação bilíngüe que contemplem a formação cultural e o acesso à leitura e à escrita pela criança

Professora: Selma de Assis Moura
Pedagoga, mestre em Linguagem e Educação, tem atuado como professora, coordenadora Pedagógica e assessora em escolas bilíngües

Período: 3, 10 e 24 de fevereiro; 3, 10, 17, 24 e 31 de março; 7 e 14 de abril (quartas-feiras), das 19h às 22h

Carga horária: 30 horas

Número de vagas: 30

Preço: sindicalizados – R$ 183,00 - não-sindicalizados – R$ 366,00

domingo, 5 de julho de 2009

Artigo de Eric Duarte Ferreira: O ensino de língua estrangeira na educação de jovens e adultos de Florianópolis

Divulgando artigo científico:
O ensino de língua estrangeira na educação de jovens e adultos de Florianópolis: bilinguismo, pesquisa e intercompreensão
Eric Duarte Ferreira
Universidade Federal de Santa Catarina
Revista Brasileira de Linguística Aplicada - ISSN 1984-6398

O objetivo deste trabalho é problematizar a promoção de um ambiente bilíngue para se ensinar o espanhol como língua estrangeira dentro da proposta pedagógica da educação de jovens e adultos de Florianópolis (SC), que toma a pesquisa como fundamento primordial. Com esse intuito, foram realizadas quatro entrevistas com os professores de espanhol desse município. Verificou-se nas análises das entrevistas que os deslocamentos efetuados pela pesquisa como princípio educativo precisam ser revistos, especificamente com relação à posição de mediador. Nesse sentido, sustentamos que a associação entre bilinguismo e pesquisa deva ser suplementada pelos pressupostos teóricos e metodológicos da intercompreensão, especialmente através do trabalho com as habilidades de recepção - compreensão
e leitura em espanhol.

PALAVRAS-CHAVE: bilinguismo; pesquisa; intercompreensão.

Disponível em http://www.letras.ufmg.br/rbla/2009_1/09-Eric%20Ferreira.pdf
(Clicando no título dessa postagem você é automaticamente direcionado ao texto)

Artigo de Gernot Grube: Por que a nossa educação padrão não é bilíngue?

Por que a nossa educação padrão não é bilingue?
Gernot Grube, Doutor em Filosofia e ex-pesquisador na Universidade Humboldt, em Berlim

Em uma era de globalização, um assunto como esse torna-se cada vez mais relevante
fonte: CGC Educação (14.05.2009)
Publicado em 19 de Maio de 2009 no http://e-educador.com/index.php/artigos-mainmenu-100/4551-education09


Ninguém nega o valor da educação para todas as sociedades. Educação é como uma extensa oferta de instrumentos para desenvolver, cuidar, melhorar e aumentar nossos recursos. Na maioria das sociedades as escolas detêm o papel-chave para desenvolver a competência cognitiva e moral de jovens personalidades. A quantia de dinheiro alocada na educação varia enormemente de uma sociedade para a outra. Mas suspeitamos que essa não seja apenas uma questão financeira. Pois há sistemas mais caros que não produzem resultados tão bons quanto outros mais baratos. Trata-se, sim, de uma questão de metodologia. O que deveria ser feito na sala de aula?

No primeiro fim de semana de maio, do 1° ao dia 3 do mês, realizou-se uma conferência com 500 participantes em São Paulo sobre educação bilíngüe. A conferência acontece a cada dois anos e é realizada pela Escola Cidade Jardim. Os participantes vêm de todo o mundo. Os palestrantes são pesquisadores acadêmicos de renomadas instituições do Brasil e do exterior que têm-se destacado por sua pesquisa de ponta na área de educação bilíngue. Em uma era de globalização, um assunto como esse torna-se cada vez mais relevante.

Ofelia Garcia, da New York University, argumentou em sua palestra que a única educação apropriada para o século 21 é uma educação bilíngue. Em seu recém-publicado livro, onde promove o futuro do bilinguismo, ela cita a declaração da Unesco de 2003: “as exigências de participação em níveis nacional e global e as necessidades culturais e linguísticas específicas de distintas comunidades só poderão ser atendidas pelo ensino multilíngue.”

Algumas sociedades, como a cidade-estado de Singapura, já possuem consequentemente, um sistema de ensino bilíngue. Na conferência, Anne Pakir, da Universidade Nacional de Singapura, apresentou experiências recentes com bilinguismo em seu sistema local de ensino.

Educação bilíngue é diferente de simplesmente aprender uma língua estrangeira como acontece em muitos esquemas tradicionais. Em termos simples, o aprendizado bilíngue significa usar dois idiomas na escola. Significa por exemplo, aprender história em Inglês e Português, ou aprender geografia, matemática e química em ambos os idiomas. Imagine-se aprendendo o teorema de Pitágoras em Português e depois discuti-lo em Inglês. Se esse processo for iniciado cedo, o aluno poderá dominar um segundo idioma com fluência. E depois acrescentar outro (s) idioma (s) com maior facilidade ainda.

Siv Bjorklund, da Universidade de Vaasa, na Finlândia, explicou que, o progresso de alunos bilíngues na aquisição de idiomas adicionais é significativamente superior ao de alunos monolíngues. Mas há evidências também de que as habilidades cognitivas em geral são mais estimuladas pelo bilinguismo. A experiência prática em educação bilíngue mostra que para as crianças, é perfeitamente acessível a tarefa de comunicar-se com perfeição em duas línguas. É claro que o simples fato de ser fácil não é argumento suficiente. Mas o fato de ser tão fácil demonstra o enorme potencial latente na cognição infantil.

Resumidamente falando, vamos olhar para algumas das vantagens da educação bilíngue. Nossas crianças estão tendo a oportunidade de usar muito mais de suas habilidades naturais cognitivas. Elas têm a oportunidade de expandir um horizonte intelectual que potencialmente aprimora capacidades básicas de abstração e o aproveitamento de conteúdos acadêmicos torna-se mais fácil. Elas falam duas línguas com facilidade e frequentemente sem sotaque, ao saírem da escola... E elas estão completamente preparadas para aprenderem outros idiomas.

Este último argumento deveria ser suficiente para promover a educação bilíngue em um nível institucional. Pois em um mundo que se torna cada vez mais uma comunidade internacional, nada mais essencial do que habilidades lingüísticas de comunicação. E

apesar de, no ocidente e em grande parte da Ásia e da África o Inglês ter-se tornado uma língua franca, não devemos buscar um Esperanto. Pois uma língua deve situar-se em um contexto cultural. A estratégia não é eliminar línguas que reflitam contextos culturais específicos. Mas aumentar nossa habilidade de aquisição de novos idiomas.

Na conferência, Jim Cummins, da Universidade de Toronto, mencionou um último e interessante aspecto do bilinguismo. Toda a pesquisa ao longo dos últimos 40 anos mostra que não há desvantagem de crianças aprenderem uma língua estrangeira e matemática ou história ao mesmo tempo. Isso refuta a (falsa) suposição de que apenas as crianças mais cognitivamente “agraciadas” poderiam lidar com tanto aprendizado ao mesmo tempo. Isso funciona também de outra maneira: uma criança com dificuldade de entender um problema aritmético em uma língua, pode se beneficiar do uso de uma segunda língua para reconhecer o problema em questão.

Com todas essas boas razões para o bilinguismo, não seria razoável esperar que nossas escolas fossem lenta e gradativamente transformadas em instituições bilíngues? Claro que não tão lentamente, pois deixaríamos preciosos e necessários recursos cognitivos inexplorados. Mas não se trata de uma questão de andamento, mas uma questão de princípio: por que a maioria esmagadora de nossas sociedades não inicia processos de educação bilíngue?

Há uma perfeita metodologia disponível que não está sendo utilizada. O argumento com o qual nos deparamos aqui é o de que há interesses nacionais, um lobby político que deliberadamente emperra o processo de implementação de um sistema educacional bilíngue.

Na conferência de dois anos atrás, Gilvan Muller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina, reconstruiu o histórico das políticas de língua no Brasil e mostrou que, para definir uma identidade brasileira forte, as outras línguas não apenas foram excluídas das escolas, mas também foram proibidas de serem usadas.

É claro que esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Theodor Roosevelt, em 1915, expressou isso da seguinte maneira: “Temos espaço aqui para um único idioma. O idioma Inglês. Pois queremos que o sistema faça com que nosso povo seja Americano, de nacionalidade Americana e não habitantes de um abrigo poliglota.” Ou então, como foi dito por Ronald Reagan várias décadas mais tarde: “É absolutamente errado e contra os ideais americanos ter um programa bilíngue que está comprometido em manter suas primeiras línguas e jamais apresentá-los a um inglês com real competência para que possam ingressar ativamente no mercado de trabalho.”

É fácil perceber o quão equivocado é esse ponto de vista. Pensando dessa forma, ignora-se o fato de que a educação bilíngue visa aprimorar a competência linguística em geral, inclusive no inglês.

A situação na Europa parece ser um pouco diferente se considerarmos uma declaração da Comissão da União Européia de 2003: “O aprendizado de uma língua franca não é o suficiente. Cada cidadão europeu deveria ter competência comunicativa em pelo menos dois outros idiomas, além do seu próprio.” Mas a realidade, no entanto, é menos significativamente diferente. Também na União Européia, a educação bilíngüe não é a norma. E por que não, já que uma soma infindável de pesquisa argumente em seu favor?

Vamos pensar um pouco sobre os “motivos” que impedem a implementação do bilinguismo em um nível global. Em primeiro lugar, não haveria dinheiro suficiente para a contratação de professores capacitados. Esse argumento é, sem dúvida, limitado. Pois o business da política é direcionar os orçamentos e um critério central para decisões financeiras deveria ser o investimento em recursos humanos. Em segundo lugar, há o preconceito nas mentes de pais, de que os alunos não seriam capazes de lidar com o desafio do bilinguismo. A única maneira de se livrar dessa armadilha é através da implementação do novo modelo, tarefa do governo e dos responsáveis pela educação. Mas parece que as respectivas lideranças não estão muito dispostas.

Talvez, a partir disso, percebe-se o terceiro motivo: a luta por uma identidade nacional. As políticas educacionais de cada país devem encaixar-se nas exigências nacionais. Esse argumento explica porque, às vezes, um certo tipo de bilinguismo nunca foi e continua não sendo o desenvolvimento das competências linguísticas de uma criança. Mas sim, adotar uma criança cuja língua materna pertença a alguma minoria e doutriná-la no idioma oficial do país, ajudando assim, a fortalecer a identidade nacional.

Daí em diante, a questão do bilinguismo torna-se uma questão de poder, sobre as estratégias utilizadas pelo status quo para reproduzir sua superioridade. A partir desse ponto, o problema torna-se mais complexo. Não é a Nação que pede uma educação fortemente monolíngue. Mas os interesses de grupos sociais para preservarem seu poder. Poderíamos entender que a partir dessa perspectiva o bilinguismo torna-se um item delicado, dado o poder que ele tem de mobilizar os tecidos sociais. A linguagem é nossa principal ferramenta para criar, manter, transformar, destruir ou preservar redes sociais.

Infelizmente, não houve nenhum palestrante na conferência que abordou esse tópico: os links entre monolinguismo, estruturas sociais e interesses de poder. Talvez por bons motivos. Pois esse assunto requer sua própria conferência. Se aceitarmos o argumento de que a ausência do bilinguismo se deve à noção de que enfraqueceria a rede social de um grupo no poder, devemos aceitar que o debate sobre o bilinguismo é, em essência, político. Essa será uma discussão para os grupos que não estão no poder, mas que detém os melhores argumentos. Estamos falando de educação bilíngue enquanto modelo padrão, ao invés de uma educação particular ou especializada para apenas alguns alunos privilegiados.

Divulgando pesquisa: Dissertação de Mestrado de Ana Maria Fernandes David

DAVID, Ana Maria Fernandes. As concepções de ensino-aprendizagem do projeto político-pedagógico de uma escola de educação bilíngue. Dissertação (mestrado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), 2007
Disponível em http://www.pucsp.br/pos/lael/lael-inf/teses/DAVID2007%20PDF.pdf

Esta pesquisa tem como objetivo identificar as concepções de ensino-aprendizagem do
Projeto Político-Pedagógico, de uma escola de educação bilíngüe, situada na cidade de São Paulo. Considerei nessa investigação que o trabalho educacional é representado também em textos produzidos institucionalmente e por isso procurei reconhecer no Projeto Político-Pedagógico, elaborado pela escola, aspectos que caracterizam as ações pedagógicas, tais como: os objetivos e as finalidades da educação, a seleção dos conhecimentos escolares, o papel da língua materna para aprendizagem da segunda língua, o papel do professor, do aluno, os tipos de
tarefas de ensino-aprendizagem e a avaliação. Para isso, utilizei os seguintes referenciais teórico-metodológicos: o conceito de Projeto Político-Pedagógico (Vasconcellos, 1995/2004, Boutinet, 1999/2002 e Padilha, 2006), as teorias de ensino-aprendizagem behaviorista (Skinner, 1974; Blomm, 1956/1973), cognitivista (Piaget, 1956/1973; 1967/2003; 1970/2002) e sócio-histórico-cultural (Vygotsky, 1984:2003; 1987/2000; 2001; 2004) e os significados da educação bilíngüe (Hutchison & Waters, 1987,1992; Hamers & Blanc, 1989; Baker, 2000, 2001; Lantolf, 2000). Optei pela pesquisa na Lingüística Aplicada pela possibilidade de desenvolver a reflexão
crítica a partir da linguagem que constitui a prática pedagógica e de considerar o documento elaborado na escola como texto que veicula prescrições ao trabalho educacional (Amigues, 2004; Nourodine, 2002). Os dados foram coletados em uma escola de educação bilíngüe, da cidade de São Paulo, que desenvolve essa proposta na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, e a seleção dos dados restringiu-se ao segmento do Ensino Fundamental. Como metodologia de análise, baseei-me nos procedimentos propostos por Bronckart (1997/1999) e Bronckart & Machado (2004), com a finalidade de identificar, no texto analisado, as concepções de ensino-aprendizagem, a partir das características do plano dos contextos, do plano enunciativo e do plano da organização textual, especificamente em relação ao conteúdo temático e as escolhas lexicais. Os resultados das análises permitiram concluir que as concepções cognitivistas e sóciohistórico-culturais constituem o Projeto Político-Pedagógico da escola e podem conseqüentemente, caracterizar um cotidiano escolar marcado por essa diversidade.

3o BilingLatAm - Simpósio Internacional sobre Bilinguismo, Educação Bilíngue e Cidadania da América Latina



Nesta semana acontece o 3o BilingLatAm em São Paulo. É a primeira vez que o evento vem ao Brasil. Os resumos das apresentações já estão disponíveis no site www.blinglatam.com.br (clicando no título dessa postagem você vai direto pro site) e dão uma idéia da abrangência do evento, que acontecerá na PUC e no Colégio Rio Branco.

sábado, 6 de junho de 2009

CLIL - Content and Language Integrated Learning Conference, in Maceió

International Conference on Content Based Instruction (CLIL) for Young Learners: Breaking through Traditional Boundaries
Maceió, Brazil July 8th – 10th, 2009
(jointly organized by IATEFL YL Sig and SYSTEMIC, Maceió, Brazil)

The International Conference on Content-Based Instruction (CLIL) for Young Learners in Brazil will be held in Maceió.

The conference has three main aims: to spread the idea of TEYL (Teaching English to Young Learners) through content; to provide a good forum for debate, information exchange, and dissemination of good practice for those who already use content-based instruction; and to contribute to the improvement of the level of TEYL in Brazil. The participants will include teachers from the private and public sectors, school coordinators, directors, and policy makers.

For more information visit the Conference website at http://www.cbiintlconferenceyl.com.br

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Evento em Foz do Iguaçu, em setembro


III Encontro Internacional de Letras e I Encontro Nacional
Transculturalidade, Linguagem e Educação


De 09 a 11 de setembro de 2009

Na UNIOESTE (Campus de Foz do Iguaçu)

O III Encontro Internacional de Letras, que acontece de 09 a 11 de setembro de 2009, no campus de Foz do Iguaçu, da UNIOESTE, teve, em 2007, sua primeira versão. Este ano consolida-se o caráter internacional do evento. Organizado por uma equipe de professores do colegiado de Letras e acadêmicos do 3º. ano, espera-se um público de aproximadamente 400 participantes, entre acadêmicos e professores, profissionais da área de educação, pesquisadores da área de linguagem da região de Tríplice Fronteira, além pesquisadores de outras regiões do Brasil.

Confira tudo no site: http://www.foz.unioeste.br/~eventos/enc_int_letras/

(Clique no título da postagem para ir direto ao site do evento)

terça-feira, 26 de maio de 2009

34th Alumni TEFL Conference - July 1-3, 2009


An annual event for the development of professionals in TEFL (Teaching English as a Foreign Language), this conference is a forum for teachers of English from all over Brazil. It includes lectures, workshops, special interest meetings and exhibits of educational materials.

This year’s convention will take place on July 1-3. Speakers confirmed so far: Lucy Chriton (Macmillan do Brasil), Ray Shoulder (Richmond Publishing), Roberto Costa (Cambridge), Claudio Piccolo (PUC), Margaret Pederson (US State Dept), Marcia Pedrosa (IBEU-Rio), Rafael Reis (Cengage) Carlos Gontow, Celso Frade, Luiz Otavio Barros and Rick Nishioka (Alumni), Marcelle Doria, Sergei Nesterenko and Thomas Topham, among others.

Registration Fees for the two and a half-day program:
Early registration – from June 1 to June 19:
R$ 170,00 (one hundred and seventy reais)
Late registration - from June 22 to July 1:
R$ 200,00 (two hundred reais)
Special fees for college students (Letras and Pedagogia): R$ 85,00 and R$ 100,00 for early and late registration, respectively.
Special fees for Braz-Tesol members: R$ 120,00 and R$ 150,00 for early and late registration, respectively.
Registration procedures soon to be announced, but do save the date!

sábado, 2 de maio de 2009

A figura humana nas aulas de artes: uma proposta de trabalho na educação infantil bilíngue.

Selma de Assis Moura e Ariane D’Avila Mantovani
3rd Brazilian Bilingual Schools Conference / 3º Congresso Brasileiro das Escolas Bilíngues
Workshop nº 29 - 02 de maio de 2009

O propósito deste trabalho:
Queremos compartilhar uma reflexão sobre a experiência de trabalho nas áreas de artes e linguagem desenvolvida com crianças de 5 anos em uma escola bilíngue de educação infantil na cidade de São Paulo. Nesta escola, como ocorre em muitas outras escolas bilíngues, as crianças passam pelo menos quatro horas diárias em um programa de imersão em segunda língua (no nosso caso, inglês) que não é apenas a língua que se pretende ensinar, mas também a língua através da qual os conteúdos curriculares são ensinados.

Vivemos, portanto, um duplo desafio: o de ensinar os conteúdos curriculares e uma segunda língua a crianças que são, quase todas, brasileiras e falantes nativas de português. Há na escola também algumas crianças para quem o inglês é a primeira língua, ou mesmo uma segunda língua materna. Para garantir um ambiente de circulação do inglês e maximizar a exposição das crianças à segunda língua, a comunicação entre a equipe da escola e as crianças ocorre quase totalmente neste idioma, embora o português seja eventualmente utilizado em atividades específicas e apareça, na maior parte do tempo, na comunicação entre as crianças. Conforme as crianças demonstram maior compreensão do inglês, as professoras as incentivam a falar mais nesta língua.
Um dos eixos de trabalho na escola é constituído pelas Artes Visuais. Presente de muitas formas na vida das crianças, as artes constituem uma forma privilegiada de ajudá-las a compreender o mundo, organizar seus pensamentos, expressar ideias, desenvolver o domínio de técnicas expressivas e ampliar seu potencial criativo. Seu principal objetivo é o desenvolvimento estético e a educação da sensibilidade. Mas como menciona o próprio Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, frequentemente as artes acabam se transformando em uma série de técnicas desconexas, que assumem função acessória a outras áreas, como a decoração, a elaboração de adereços, a preparação de eventos e outras funções que não contribuem com o aprendizado das crianças sobre artes.

Quisemos superar essa visão utilitarista de artes e avançar rumo a uma visão de artes como linguagens, e por isso teve lugar na escola um processo de formação em que pudemos refletir sobre o que é arte e o que é ensinar arte na escola. Algumas professoras tinham mais experiência do que outras, mas todas se engajaram de alguma forma nesse processo de formação, que nos ajudou a reconstruir nossa própria prática (MOURA, 2008).

A bagagem essencial do professor é seu repertório profissional que é adquirido pela prática. Porém, não é a prática por si só que é formadora, ela deve sempre ser acompanhada da reflexão sobre a experiência, pois é a reflexão sobre a experiência que é formadora e não a experiência por si só. (NÓVOA, 2004)

Este desafio se coloca a todas as professoras polivalentes que atuam na educação infantil. Mas em nosso caso, dada a especificidade de se tratar de uma escola bilíngue, mais um desafio se coloca: ensinar uma língua e ensinar através de uma língua. Para nós, que utilizamos a comunicação na segunda língua como forma de ensinar a própria língua e os conteúdos pretendidos, ambos os processos são concomitantes.

A experiência que escolhemos compartilhar teve lugar sob a forma do projeto “Body in Arts”, desenvolvido com a turma de 5 anos. A escolha de trabalhar com este tema, o corpo humano, tem a ver com os interesses e necessidades das crianças nesta idade, que estão construindo seu esquema corporal e sua auto-imagem, e permitiu construir uma grande variedade de conhecimentos.

As crianças tiveram contato com obras de vários pintores e escultores, o que permitiu que ampliassem seu repertório imagético ao perceberem uma grande variedade de possibilidades de expressão para o tema do corpo humano. Partimos de suas ideias iniciais, que foram sendo confrontadas com outras ideias, reorganizando-se, ampliando-se e aproximando-as da produção cultural em artes. Como afirma Iavelberg (2006):

Cabe à escola abrir o leque no ensino das diversas áreas de conhecimento. Situamos a área de arte que, entre outras linguagens, circunscreve a aprendizagem do desenho que, aprendido na escola, certamente promoverá a participação cultural dos alunos e a interação com a diversidade das culturas.

A documentação do processo de aprendizagem através de fotografias, cópias das produções das crianças, anotações de suas falas e registros reflexivos pela professora foi essencial para formar um panorama da progressão das aprendizagens das crianças, como mostramos neste trabalho. É com base na experiência que desenvolvemos e no que aprendemos que compartilhamos nossa reflexão e nossa proposta, esperando assim contribuir com o trabalho de outros colegas que, como nós, vivem o duplo desafio de ensinar artes e uma segunda língua de forma integrada.

Por que trabalhar com a figura humana nas aulas de artes?

O corpo é o centro do conhecimento, das percepções, das sensações, da estruturação da identidade, da organização do pensamento. No dizer de Edith Derdyk, pesquisadora, artista, é pelo corpo que o mundo interior, psíquico, se comunica com o mundo exterior, social. E como nos ensinou Piaget, a gênese da inteligência da criança é sensório-motora, dá-se no plano da ação motriz, predecessora e parte constituinte de todo o pensamento. De uma idéia inicial indiferenciada entre seu corpo e o corpo da mãe, o ser humano gradualmente estrutura sua percepção de si como indivíduo. A apropriação da imagem de si, a construção de seu esquema corporal e a afirmação como sujeito caminha de uma visão egocêntrica para uma progressiva descentração, necessária à formação da subjetividade de cada pessoa.

Desde muito cedo as crianças, em sua exploração do mundo e dos materiais, têm acesso a riscantes que imprimem marcas sobre superfícies. No início essas marcas são impressões de seus gestos, e não expressam um desejo de representação. Porém, a criança logo percebe que seus movimentos causam impressões gráficas, e passam a variar os movimentos observando as mudanças produzidas. Assim, as garatujas passam a ordenar-se e podem estruturar-se em padrões lineares, circulares, espiralados, conforme as experiências que as crianças vão construindo.

Uma revolução copérnica no pensamento da criança ocorre quando ela percebe que estas marcas podem representar algo. A associação entre marcas gráficas e uma realidade que pode ser representada é uma construção cognitiva que permite à criança acrescentar ao seu desenho uma intenção de representar: uma nova possibilidade de pensamento, agora simbólico, se apresenta, e será experimentada pela criança com entusiasmo. As garatujas passam a ser nomeadas: a criança diz: “Isto é um cavalo, este sou eu, esta é minha mãe...”, mesmo que seus traços ainda pareçam indistintos para nós.

Essas experiências com a representação vão gradualmente estruturando o desenho da criança em padrões mais figurativos. Frequentemente a criança procura representar a si mesma e às pessoas com as quais convive: família, colegas, professores, além dos ‘seres’ que lhe interessam: animais, brinquedos, etc. As experiências de vida da criança passam a se revelar em seus desenhos.

Além do conhecimento de si mesma, que a criança tem ao desenhar, ganha compreensão do mundo. Ela desenha porque existe desenho no mundo. Aprende a ver e a executar o que vê. Tende a assimilar níveis de conhecimento e produção artística e estética cada vez mais complexos, agindo sobre os objetos de conhecimento (desenhos) de diversas culturas, tempos e lugares. (IAVELBERG, 2006)

O desenvolvimento do desenho da criança se dá de forma indissociável ao seu desenvolvimento como um todo. A linguagem verbal, o pensamento lógico, a psicomotricidade, a socialização e a afetividade se desenvolvem ao mesmo tempo, pois a criança é una.

Desenhar a figura humana, ou seja, a si mesma e aqueles com quem convive, é significativo para a criança, pois permite que pense sobre si mesma, seu corpo, sua personalidade.

A construção da figura humana, em sua gênese, é um ótimo pretexto para observarmos o mapa da ampliação da consciência, através de um documento gráfico vivo e orgânico; é um convite para flagrarmos o processo de construção da visão de mundo da criança (DERDYK, 2003)

Ao estudarmos a história da arte percebemos claramente que em todos os tempos o ser humano se ocupou de sua representação: na Grécia antiga escultores como Praxíteles e Fídias procuravam um ideal de beleza, simetria e harmonia que representasse externamente as qualidades humanas. No antigo Egito a arte procurou fixar a história e a magia sob a forma de pinturas, desenhos e esculturas em que se representava não o que se vê, mas o que se sabe. A pintura clássica retratou tanto a constituição social e econômica das sociedades quanto o imaginário religioso que a cristandade pretendia transmitir aos fiéis. A arte moderna procurou desconstruir a idéia unívoca de representação, ocupando-se do corpo humano para lhe dar um caráter multidimensional como vemos em Picasso. E a arte contemporânea ainda se debruça sobre a representação do corpo humano, eventualmente como crítica aos padrões estéticos vigentes.

O que nos interessa neste texto é pensar sobre como o trabalho com a figura humana nas aulas de arte na educação infantil pode ser contextualizado na necessidade do ser humano de compreender a si mesmo. As artes, como linguagens que são, comunicam ideias, preocupações e visões de mundo, permitindo uma revisão, uma melhor compreensão de quem somos e qual nosso lugar no mundo. Na construção da representação da figura humana aprendemos mais sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre os limites Eu-Outro, essenciais na construção da identidade, sobretudo com crianças pequenas.

Tal como a apreensão da forma depende da consistência e da sinalização de suas fronteiras, para a criança a consciência de si depende da percepção de um eu que se distingue de um outro. Qual é a fronteira entre o eu e o mundo exterior, para a criança? A criança confunde essas divisórias, promovendo uma fusão contínua entre o dentro e o fora, entre o psíquico e o físico, confirmando a ausência de um dualismo que instrumentalize o recorte de sua figura no mundo (DERDYK, 2003)

Pensamos, assim, ser essencial incorporar o estudo da figura humana nas aulas de artes, e procuramos uma proposta de trabalho que tome as crianças como autoras de seus próprios conhecimentos e como capazes de se relacionar com a produção artística produzida historicamente pela humanidade, desenvolvendo assim seu percurso criativo de maneira informada pela cultura.

O projeto “Body in Arts”

Dada a importância do conhecimento do próprio corpo pela criança na construção de sua identidade e de sua relação consigo e com o mundo, estruturamos a proposta de trabalho com a figura humana sob a forma do projeto didático “Body in Arts”.
Dentre os objetivos traçados para este projeto esperávamos que as crianças pudessem:
• Manter e ampliar seu interesse nas aulas de artes;
• Ampliar seu conhecimento da língua pelo enriquecimento do vocabulário;
• Desenvolver apreciações de obras de arte como forma de compreendê-las, comunicar suas ideias a apropriar-se de sua linguagem;
• Experimentar diversas formas de representar o corpo humano;
• Ampliar a capacidade de criação através da manipulação de diferentes objetos e materiais, explorando suas características, propriedades e possibilidades de manuseio;
• Conhecer e experimentar algumas técnicas de representação, como o desenho com diferentes suportes e riscantes, e a modelagem com materiais diversos;
• Conhecer algumas obras de arte que representam a figura humana, contrastando-as;
• Ampliar o conhecimento de mundo através da ampliação do repertório estético no contato com obras de diversos pintores e escultores;
• Interessar-se pelas próprias produções, pelas de outras crianças e pelas diversas obras artísticas com as quais entram em contato, ampliando seu conhecimento do mundo e da cultura;
• Produzir trabalhos de arte utilizando a linguagem do desenho, da pintura, da modelagem e da construção, desenvolvendo o gosto, o cuidado e o respeito pelo processo de produção e criação.
Para atingir esses objetivos, organizamos os conteúdos sob a forma de fatos e conceitos, procedimentos e atitudes, conforme proposto por Zabala (1999). Nosso quadro de conteúdos ficou assim organizado:

Conteúdos Conceituais:
• Leitura de imagens dos artistas propostos: Van Gogh, Goya, Munch, Miró e Sandra Guinle;
• Desenhos de observação do próprio corpo, visto no espelho;
• Desenhos de observação dos colegas de sala;
• Pinturas representando figura humana;
• Auto-retrato;
• Modelagem com massinha representando a figura humana;
• Contato com uma artista contemporânea, Sandra Guinle;
• Nomes das partes do corpo, em inglês;
• Nomes dos materiais utilizados, em inglês;
• Verbos de ação relacionados a atividades artísticas: to draw, to paint, to color, etc

Conteúdos Procedimentais:
• Apreciação de suas próprias produções, das produções dos colegas de classe;
• Apreciação das reproduções dos artistas apresentados;
• Produção de desenhos, pinturas e esculturas sobre a figura humana;
• Produção de fundo para posterior continuação com a produção da figura, e vice-versa;
• Produção de auto-retrato com técnicas variadas;
• Variações de suportes e riscantes, com análise dos resultados obtidos;
• Desenhos livres após apreciação de reproduções das obras apresentadas;
• Desenhos de observação de pessoas;

Conteúdos Atitudinais:
• Prazer e gosto em desenvolver atividades artísticas;
• Disponibilidade para comunicar-se em duas línguas;
• Interesse pela exploração dos materiais de artes;
• Cuidado com os materiais;
• Respeito aos colegas e suas produções;
• Organização ao final das atividades;
• Aumento da capacidade de concentração;
• Desenvolvimento de gosto estético;
• Estímulo à criatividade e à auto-expressão.

É importante destacar o papel da pesquisa do vocabulário e das estruturas lingüísticas específicas a este trabalho, que envolve uma listagem dos nomes das partes do corpo e dos materiais oferecidos às crianças. Uma pesquisa sobre as obras e os artistas apresentados às crianças também é indispensável para dar segurança à própria professora, tanto no que diz respeito à arte em si quanto à linguagem necessária para comunicar e ensinar as crianças.

Essa é uma parte que não pode ser esquecida quando se trabalha conteúdo e língua de forma integrada. Para ensinar a língua é preciso sabê-la, o que parece evidente mas tem implicações nem sempre lembradas. Alguns conteúdos trazem um vocabulário que não faz parte da comunicação diária do professor e que pode ser desconhecido para ele. Portanto, é indispensável familiarizar-se com os termos específicos relacionados ao tema que se trata, sobretudo ao se trabalhar com projetos didáticos, que podem aprofundar-se em alguns aspectos ou mudar de direção durante seu andamento.
Também é importante prever quais serão os materiais necessários às atividades: livros de arte com obras relevantes, livros infantis sobre artes, lista de sites e museus virtuais, material para desenhar, pintar e modelar, superfícies variadas, espelhos, etc.

Informar os pais através de uma carta e dar sugestões de como podem criar em casa conexões com o que as crianças estão aprendendo na escola constitui uma maneira de enriquecer o trabalho pedagógico e aproximar os pais da escola, estabelecendo uma parceria que beneficia as crianças.

Além dessas medidas, o planejamento do professor também delineia uma série de estratégias para atingir estes objetivos, que vão se modificando e se ampliando ao longo do projeto: A proposição de rodas de apreciação de reproduções que apresentavam a figura humana por artistas como Miró, Van Gogh, Munch e outros; a visita a museus e espaços expositivos em visitas temáticas monitoradas; a produção de desenhos de imaginação, de observação e de memória; a construção de esculturas representando a figura humana; o desenho de auto-retrato diante do espelho; o trabalho individual, em dupla e em grupo na produção de obras da turma; a roda de apreciação das produções das próprias crianças; a construção de textos coletivos registrando aprendizados; a seleção de obras e a montagem de uma exposição com os trabalhos produzidos são algumas estratégias possíveis no âmbito deste projeto.
E como se trata de um projeto, a reapresentação dos conhecimentos construídos pelas crianças à comunidade sob a forma de um produto final compartilhado vem dar sentido social às aprendizagens. A proposta de apresentar uma exposição com os trabalhos das crianças valoriza estes trabalhos,

Avaliação das aprendizagens

Para documentar o processo de aprendizagem foi montado um portfólio para cada criança com amostras representativas de seu trabalho e sua evolução. O portfólio também continha fotografias, anotações da professora, relatórios, e tornou-se um documento que evidenciava e apoiava a aprendizagem das crianças, útil para elas mesmas, para as professoras e para os pais.

Documentar esta aprendizagem permitiu que todos percebessem como as produções das crianças foram se modificando. Pela observação de seu corpo, pela reflexão sobre as formas de representar, pela apreciação das obras de diferentes artistas, as crianças foram desenvolvendo sua observação, apropriando-se dos elementos figurativos que compõe a linguagem do desenho, experimentando o uso desses elementos em suas obras e encontrando mais prazer ao produzi-las.

“At the beggining of the project I drew the eyes (as) balls, the second I draw the eyes different. I learnt because I saw my eyes.” (Júlia H.)‏
Nesse trabalho as crianças aprenderam uma série de conhecimentos em arte que se relacionam a outras áreas do conhecimento e que as ajudaram a desenvolver-se de modo integral. Em um trecho da avaliação feita pela professora, colocada no portfólio de um aluno junto com suas atividades de desenho, alguns desses aprendizados foram evidenciados:

Os momentos de troca e parceria contribuíram para que Marcelo e seus amigos começassem a perceber alguns detalhes que estão presentes no nosso rosto e fazem com que sejamos diferentes um dos outros. Através desses momentos de observação e de apreciação de outras obras de diferentes épocas e técnicas, as crianças começaram a utilizar o seu novo conhecimento em suas próprias produções, pois sabemos que a Arte é um produto da criatividade humana que, mediante conhecimentos, técnicas e um estilo todo pessoal, transmite uma experiência de vida ou uma visão de mundo, expressando verdades humanas e despertando emoções em quem a usufrui.
Luana: “Nossa, there’s a small ball in my eye, and it’s darker.”
Lucas: “Meu cabelo é bem claro, né?” (Lucas estava puxando conversa com a amiga Júlia H. ao se olhar no espelho e ver suas características físicas).
Júlia H: “Yes, but my hair is bigger”.
Priscilla: “I like my hair because it’s black. I’ll have to use a black pen to draw my hair.”
Bárbara: “A mouth da Ari is very big”.
Júlia P: “My nose has two balls, I think it’s funny. Look” (Júlia estava pedindo para Marcelo e Priscila olharem para dentro do seu nariz).
Marcelo: “My nose is big.”
Observando seu caderno de desenho, podemos perceber que Marcelo utilizou seu novo conhecimento em suas últimas produções, prestando cada vez mais atenção nos detalhes e nas formas. Além disso, sua coordenação motora está cada vez mais desenvolvida, apresentando avanços significativos no controle de seus movimentos e no tremor da linha. Entretanto, percebo que Marcelo utiliza muita força para segurar o lápis, fazendo com que se canse com mais facilidade e rapidez durante uma atividade. Procuro conversar com ele e mostrar que existem diversas maneiras que ele pode utilizar para segurar um riscante qualquer e que ele deve optar pelo que mais o agrada e lhe dê segurança.


A competência comunicativa das crianças varia muito, principalmente em função do tempo em que freqüentam a escola. Mas como podemos ver no excerto acima, as crianças conseguiram se apropriar da segunda língua e utilizá-la para expressar suas ideias e conhecimentos.

O aprendizado dos conteúdos trabalhados pela professora em artes se relaciona com o desenvolvimento das crianças como um todo, seja na construção de sua consciência corporal, no desenvolvimento psicomotor, na percepção e na atenção, na linguagem oral e na socialização. Isso não significa que a arte deve estar subordinada a outras exigências de formação das crianças, mas sim que o desenvolvimento infantil é integrado de tal forma que a ampliação de conhecimentos sobre artes (como em outras áreas) se reflete na formação da criança como um todo.

Além do conhecimento de si mesma, que a criança tem ao desenhar, ganha compreensão do mundo. Ela desenha porque existe desenho no mundo. Aprende a ver e a executar o que vê. Tende a assimilar níveis de conhecimento e produção artística e estética cada vez mais complexos, agindo sobre os objetos de conhecimento (desenhos) de diversas culturas, tempos e lugares [IAVELBERG, 2006].

Reflexões sobre o trabalho
Um projeto didático prevê uma grande participação das crianças na resolução de situações-problema, na proposição de atividades e na definição dos caminhos a seguir. Conosco, aconteceu de o projeto que inicialmente tinha sido pensado para durar um semestre e envolver as linguagens do desenho e da pintura, ganhar tridimensionalidade, saltando da superfície do papel para o espaço, e se prolongando pelo segundo semestre para estudarmos a modelagem e a escultura.
Essa guinada se deveu à descoberta, pela professora, das obras de Sandra Guinle, que tinham sido expostas no ano anterior em São Paulo na mostra “Cenas Infantis”. Encantada com a delicadeza das esculturas e com a temática da vida das crianças, a professora quis trazer aos seus alunos a oportunidade de conhecer esta artista.

Como no momento da realização do projeto não havia obras de Sandra Guinle expostas, foi através do site que as crianças puderam conhecer suas obras que retratam as brincadeiras e o dia-a-dia de crianças em esculturas de bronze de grande simplicidade e delicadeza.

Estabelecer uma comunicação com a artista através de e-mails aproximou as crianças da idéia de que o artista é uma pessoa real, alguém com uma história presente, e que elas também podem, se quiserem, tornar-se artistas no futuro. Sandra foi muito receptiva e acessível, e quis também ver o trabalho das crianças, que foi enviado por e-mail.

Este projeto foi se modificando durante seu percurso, e enriquecendo-se com o envolvimento das crianças e da professora. A reflexão permitiu que um equilíbrio fosse buscado: quando os desenhos das crianças começaram a mostrar um compromisso muito grande com a realidade representada, tanto em termos de formas quanto de cores, a sensibilidade da professora trouxe obras menos comprometidas com a verossimilhança entre a arte e a natureza, como Miró. Assim, buscou-se apresentar uma variedade de elementos da arte de que as crianças poderiam lançar mão em suas produções sem perder de vista suas características pessoais e seu pensamento de magia e fantasia.

Vimos o quanto o papel do professor como pesquisador é essencial na construção de seu percurso profissional e na realização de um trabalho sério e consistente em sala de aula. Procuramos superar a visão tradicional e utilitarista que coloca a arte a serviço de outras disciplinas, sem cair na tendência espontaneísta de simplesmente deixar que as crianças explorem materiais livremente e descubram por si o que há para aprender sobre artes.

Reconhecemos que esta mudança de paradigma implica pelo menos duas dificuldades: A primeira é que nós mesmas, como professoras, não vivenciamos um percurso autoral de construção de conhecimentos sobre artes em nossa educação escolar, e carregamos conosco nossas vivências como alunas, que precisamos superar. A segunda é que dá muito trabalho perceber e preencher possíveis lacunas de nossa formação docente, aprendendo mais sobre didática da arte, história da arte, abordagem de ensino integrado de língua e conteúdo. Porém, decidimos enfrentar estes desafios, imbuídas da certeza de que podemos fazer um bom trabalho com nossos alunos.

Desde a educação infantil podemos propiciar um universo rico de aprendizagens em desenho, expandindo o universo cultural das crianças, trabalho que pode seguir orientado pelas ideias em ação das crianças. Essas ideias, motores dos atos de desenho, são construídas, primordialmente, na prática desenhista e na interação de cada um com a diversidade dos desenhos presentes nos ambientes.(IAVELBERG, 2006)

Quisemos compartilhar nossa experiência com outras professoras acreditando no poder da troca, da partilha e da construção conjunta de conhecimentos. Conhecemos os desafios enfrentados pelos que ainda ousam educar, mesmo em meio a tantas dificuldades enfrentadas no exercício de nossa profissão.

Partilhemos nossas dúvidas, nossas angústias, nossas críticas e aflições, pois se é o diálogo que nos mantém vivos, como dizia Paulo Freire, é o diálogo com os colegas que nos faz professores. Esta pode ser a mais difícil, mas é, com certeza, a mais necessária das profissões. Não vale a pena acreditar que podemos transformar tudo. Não podemos. Não vamos conseguir criar uma escola que vai salvar a sociedade. Mas quem é professor não deixa nunca de acreditar, sabe que renunciar às ilusões não quer dizer renunciar às diferenças. Significa nunca deixar de ter esperança [NÓVOA, 2004].

Referências:
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, MEC/SEF, 1998
DERDYK, Edith. O desenho da figura humana. 2 ed. São Paulo, Scipione, 2003.
IAVELBEG, Rosa. O desenho cultivado na criança: prática e formação de educadores. São Paulo, Zouk, 2006
MEHISTO, Peeter, MARSH, David e FRIGOLS, Maria Jesus. Uncovering CLIL: Content and language in bilingual and multilingual education. Oxford, Macmillan, 2008
MOURA, Selma de Assis. Quem de repente aprende: uma experiência de formação continuada em artes com professoras polivalentes na educação infantil. Revista Digital Art&. Disponível em http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/18.htm
MOURA, S. M. Arte-educação para quê? Razões para ensinar arte. In: INSTITUTO ARTE NA ESCOLA. Monografias e Teses. Disponível em http://www.artenaescola.org.br/pesquise_monografias_texto.php?id_m=241
NÓVOA, A. Os professores na virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 25, n. 1, p.11-20, jun 1999.
ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Site:
WWW.sandraguinle.com.br